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Entrevista a Luís Severo

  • 26 de jul. de 2019
  • 8 min de leitura

Atualizado: 28 de out. de 2022

Sem curiosidade e ousadia, não existem ferramentas para criar?

Acho que existem, mas talvez sejam piores. No meu caso, mais a curiosidade do que a ousadia. Eu tendo a ver mais a ousadia como uma consequência do que como uma intenção. A curiosidade é uma coisa que eu alimento porque acho que é uma coisa que se não fores sempre ativo tende a desaparecer ou a morrer com o tempo. Tento manter isso vivo!

Tento não pensar muito em ousadia nesses termos porque acho que deve mais uma consequência. Acho que toda a gente que tem a intenção explícita de ser assim muito ousado, à partida não está ser honesto, mas é uma intenção honesta se fores ousado como uma consequência daquilo que és. Eu, pelo menos, sempre vi as coisas assim. Acho que sim, sem dúvida, a curiosidade é uma ferramenta muito importante. No meu caso e se a ousadia acontece, é mais como uma consequência.



Explorar o desconforto é uma maneira de nos redescobrirmos?

Sim! Não nego que o que me vai motivando a fazer canções novas seja o desconforto e a exploração disso. Portanto, acho que concordo.


Em cada novo disco tento não só pegar pelos assuntos que ainda não peguei, como pegar pelas coisas que eu acho que fogem ao óbvio. Ou não, na verdade. Será que o que é confortável e o que é, à partida, certo, não é um bom assunto para uma canção ou para o que for? Ou seja, será que o céu ser novamente azul a cada dia, não é um bom assunto? E sendo que isso não traz nenhum desconforto, na volta, é também. Por isso, acho que o desconforto pode ser uma boa ferramenta e uma boa coisa a explorar. Acho que, sem querer criar níveis do que é mais fácil ou do que é mais difícil, a contradição e aquilo que à partida não está certo é um assunto relativamente fácil ou eu, pelo menos, tenho essa facilidade. Se há um carro que não tem uma roda, à partida, é mais fácil dizer coisas sobre ele, do que se o carro for exatamente igual a todos.


Neste último disco, tentei que as letras falassem de coisas mais naturais e certas e menos desconfortáveis, tentando encontrar nelas um espaço que fosse meu. Inevitavelmente, toda essa ligação que fazes entre os assuntos não pode ser vista pelos assuntos só por si, também tem muito que ver com a roupagem estética e com a forma como contas os assuntos. Ou seja, o desconforto contado de uma forma ou de outra pode ser a diferença entre ser ou não ser uma coisa desconfortável. Se te estavas a referir à música ou algo que as pessoas façam com intenções artísticas, poder ser uma forma de lidares com o que está dentro de ti e te é desconfortável ou que não entendes, acho que sim e acho que isso faz bem às pessoas. É uma coisa que quando começas a ter alguma ferramenta, pode tornar-se repetitiva. Pode parecer antagónico, mas é mais fácil falar do que não compreendes, eu sinto isso. As coisas que não compreendes não te deixam a pensar e não te ocupas disso, porque quando falas sobre elas não é tão fácil.



Este último disco é mais sobre o amor e a morte, talvez seja mais maduro. Como vês isso?

É mais sobre o ciclo da vida. Há uma distância de ano e meio entre o segundo disco e o ‘Cara D’Anjo’ e entre estes dois há uma distância maior. Precisava de recuperar essa calma de me isolar e de fazer um disco com um ritmo mais lento. No segundo disco, senti que já tinha conquistado algum espaço, as pessoas já me davam atenção e neste disco posso não falar tão alto. Também pela minha vida pessoal, acabei por me focar mais nesses assuntos. Este disco tem mais análise social sobre a forma como olho para tudo o que acontece e reconheço que isso possam ser coisas um bocadinho mais adultas. Já não faz sentido fazer discos tão adolescentes, o que não significa que não volte a fazer discos com um ritmo mais rápido. Eu já começo a ter algum domínio sobre as ferramentas, já me conheço musicalmente e a minha música já é menos ingénua. Este disco é menos ingénuo e o outro ainda é um bocado adolescente. Sempre quis pegar nos assuntos deste disco, mas acho que tinha receio da seriedade e do compromisso. Este disco ao vivo é mais pesado, já não tenho a mesma leveza antes de ir para palco, agora tenho um compromisso mais sério e entregue.


Acho que isso também se nota nos concertos.

Eu não tinha vontade de fazer um disco colado ao outro e também não iria ser uma surpresa, mas posso voltar lá e hei-de fazê-lo porque tenho a consciência da sua importância. Quero continuar a fazer discos que sejam diferentes uns dos outros. Mas também quero escrever um disco que seja familiar do segundo, acho que ‘O Sol Voltou’ é um primo muito afastado que só vai lá a casa numas festas com muitas pessoas [risos].E quando fizer isso, já terei mais mundo, que foi algo que este disco me deu. Agora já sei que posso fazer diferente, o que é muito importante!





Sem ausência não há criação, não há vontade de dar algo que ainda não está explorado?

Mas sem ausência de quê? Ahahahah agora sou eu.


De qualquer coisa que faça falta, ou que deixe saudades.

Ok! A saudade é uma palavra nossa mas já em todo o mundo foram escritas músicas sobre isso. Por exemplo, se fôssemos contar canções sobre ausência e finitude, teríamos muitas. Só numa fase muito adulta é que se aprende a lidar com o fim das coisas, eu acho que ainda não aprendi. Quando chegas a uma idade mais avançada ganhas uma frieza para lidar com a morte ou com a mudança, se não, ficas louco. Acho que há criação sem ausência. Mesmo que cries frieza, a ausência é sempre assunto, nem que seja para dizeres que já não importa, mas se o dizes é porque importa. Gostei da questão, é um ótimo exercício.


Gostei da tua interpretação, mas referia-me à ausência como a falta, como um vazio. No fundo, como algo que não existe e que esse artistas vai criar , um espaço vazio que o artista vai completar... mas talvez seja mais pretensioso!

Não acho que seja pretensioso. Eu identifico-me porque, na minha cabeça, oiço muitas músicas que não consegui fazer, nunca uma música foi aquilo que quis que ela fosse. Claro que, cada vez mais, vão sendo o que quero, mas é uma frustração e uma surpresa (às vezes podem ser melhores!). Eu faço músicas no sentido de ser ouvinte e querer que as músicas existam. Ao compor, junto muita coisa. Mas é na busca entre o que querias que fosse e o que realmente é que enriqueces muito.



Usas as tuas músicas para lutar contra o que te incomoda, mesmo que seja dentro de ti?

Sim, claro. Já ouvi teorias de músicos que só conseguem compor quando estão muito mal e outros que só quando estão muito bem. Existem momentos mais inspirados do que outros, mas eu vivo disto, por isso, seria muito mau se todos os dias acordasse à espera de uma luz. Há dias em que fazes mais do que em cinco meses, e isso sabe tão bem! Mas talvez quando estamos mal, usamos a música como veículo para expô-lo numa luta, para ficar melhor. Não sei se quando estou incomodado escrevo melhor, mas pelo menos empenho-me mais, se não, desleixo-me.





Cada vez há mais ferramentas para sermos diferentes e somos cada vez mais iguais, ou, pelo contrário, temos menos ferramentas por causa das ‘maiorias’ que nos tentam tirar a liberdade?

É uma questão muito interessante! Acho que a internet e as redes sociais permitem que as pessoas que se queiram identificar com outras pessoas não tenham de andar à procura seja onde for. Hoje em dia, se quiseres criar identificação tens todo um mundo, para coisas boas e coisas más. Mas deu mais força a pessoas que se sentiam excluídas. Existem muitos grupos de pessoas que se sentiram com força devido à net, porque, se não, seria difícil. De facto, a junção de pessoas torna-nos mais fortes.



Por falar em Internet, começaste a lançar músicas enquanto Cão da Morte, no MySpace…… o que pensas da tua evolução?


Pois foi, nem eu sei o que me aconteceu. A música já foi tudo para mim: ocupação, forma de expressão, forma de me sentir fixe, um emprego - em todas elas aprendi coisas certas e erradas. Eu nunca pensei que iria ter uma carreira na música! Também passei momentos difíceis e houve fases em que tudo o que tinha à minha volta não era muito favorável para que continuasse. Mesmo com a net, houve momentos em que me questionei. Nem os meus amigos músicos ouvem. No fundo, não questionei o fazer músicas mas sim o editar e tocar ao vivo. Mas questionei-me muito e a resposta veio com o público.

Eu sinto menos diferença de ter 50 pessoas a gostar ou 5 000, do que de ter de 0 a 50. Nota-se mais e sinto-me grato às pessoas que pagam para os concertos e que ocupam o seu tempo a vê-los. Isso ainda me assusta! Ai, a quantidade de pessoas que pagam para me ver, porra! Cada vez que subo ao palco quero tocar como se fosse a última vez, não me importo de suar ou de ficar sem voz e era totalmente incapaz de tocar bêbado!


Que tens andado a ouvir ultimamente?

Por acaso, não tenho andado a ouvir, como acabei agora o disco preciso desse tempo e dessa fase. Mas depois vai haver uma fase em que vou ouvir muito!


O nosso corpo é quem nos procura e as sombras quem vamos encontrando?

Talvez… essa frase é um bocadinho triste porque estás a dizer que estamos sempre sozinhos. Uma sombra é uma extensão de ti próprio e à partida é uma segunda coisa. Porque é que dás esse papel aos outros? Explica-me!

Eu não pensei nesse sentido triste. Eu pensei na sombra como algo que está sempre a mudar, porque nós mudamos assim como a luz. Se a luz muda, a sombra também.

Confesso que interpretei de uma forma um pouco niilista, como se fosse: nada vale a pena.

Não foi nesse sentido! Mas dá-lhe o sentido que quiseres… nesta pergunta, deixei-me levar só pela piada das palavras. Era como se a sombra fosse a nossa parte espiritual e emocional, no fundo queria dar uma 'função' à sombra.

Já estou a perceber! [silêncio] Mas isso é mais um poema, é interessante, mas é uma visão muito tua. O que nos alimenta é mais quem gosta de nós, do que de quem nós gostamos… Raquel, o que achas? Eu vejo isto de muitas formas possíveis… não é fácil!

Raquel - Não aceitamos o que é bom para nós? Acho que tem muitas interpretações possíveis!

Há uma relação de influência entre o corpo e a sombra, óbvio. Quando o corpo muda, a sombra muda. Tu estás a dizer que quem nos procura define quem vamos encontrar. Umas coisas atraem outras, e quanto mais puxas uma coisa, mais coisas vêm ter contigo. Esta foi a interpretação que me fez mais sentido, depois de tantas, o que é interessante! Agora já é positivo e utópico, se quiseres muito que uma coisa aconteça, ela acontece. Eu conheço pessoas assim! Por exemplo, o Filipe, que me arranja os instrumentos, diz-me que sou muito cético e que devia acreditar mais nas coisas. Há muita gente que pensa assim!



Questionar dá-nos mais liberdade do que afirmar?

Sem dúvida. Essa é fácil! Questionar é mais fácil porque não exige compromisso. Quando afirmas, estás-te a comprometer e uma pergunta é a forma menos comprometida de interagires. Até há a expressão ‘perguntar não ofende’ porque as pessoas lidam melhor com o assumires que não sabes uma coisa. Uma questão é isso, mesmo que saibas, mas há truques… Assumires que não sabes uma coisa, torna-se à partida numa coisa empática.

E a pessoa que questiona acaba por ser mais livre, porque, na verdade, como está sempre a questionar pessoas, acaba por conhecer muito mais e ter muito mais mundo e noção. Há muitas situações em que gosto de dar a minha opinião e também há muitas em que sei que não vou concordar, mas como me está a interessar e estou a gostar da forma como ela explica, eu oiço porque vou aprender mesmo que não concorde. Quando ouves e filtras (sim, porque o teu entendimento tem de filtrar), aprendes muito mais e automaticamente tornas-te mais livre. Não acredito que a ignorância liberte! O conhecimento é que liberta, com todas as suas vicissitudes… Eu não concordo com essa ideia de que quanto menos sabes mais contente és, mas há muita gente que diz isso. Eu não tenho a certeza disso!


Entrevista feita presencialmente, gravada e depois transcrita

15 anos

Guess what, desta vez as fotos não são da Vera, mas podiam ser ;)

Fotos: Neuza Rodrigues

 
 
 

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