Entrevista a Tatiana Macedo
- 11 de jul. de 2023
- 7 min de leitura
Atualizado: 12 de jul. de 2023
Artista visual, a sua prática desenvolve-se entre a instalação, fotografia, o vídeo e o som e o seu trabalho já foi apresentado em diversas instituições e eventos, como a Culturgest, o MNAC, MAAT, Stedelijk Museum Bureau (Amsterdão), Tate Britain (Londres), Paris Photo (Paris), Photo Basel (Basileia), entre muitos outros. Venceu a 1ª edição do Prémio Sonae Media Art (2015).
A história desta entrevista é longa, já que era para ter acontecido há muito. Só há pouco me encontrei com a Tatiana no seu ateliê, numa solarenga tarde de março. Por isso, começo com uma daquelas perguntas bem velhinhas.

1- Retrato de Tatiana Macedo na DARDO Fundación DIDAC com projeção da instalação vídeo multicanal "Esgotaram-se os Nomes para as Tempestades", Santiago de
Compostela, 2023. Créditos: Carmen Fragoso (Didac)
Para começar com uma das perguntas antigas: A arte é a intemporal sombra do tempo que o questiona?
Há quem faça uma arte do seu tempo, estimulada pelo presente, mas também quem, ao aprofundar essas questões acabe por tornar esse pensamento intemporal. Na génese das coisas, existe sempre uma certa intemporalidade, uma certa raiz que é comum, não importa quando nem onde. Alguma arte é assim, não toda. Estas frases, ao quererem dizer muito, acabam por não dizer nada… Quando apontas para uma coisa específica e tentas estudar essa coisa e perceber o porquê de aquela coisa ser assim, naquele lugar e naquele tempo, então aí é que chegas a esse lugar. Essa é uma frase que é tão poética, questiono-me sempre que leio coisas desse género, porque existem análises de obras ou de trabalhos de artistas que depois não dizem nada daquilo que são objectivamente. Quando realmente queremos perceber por que somos assim ou reagimos de determinada maneira, é preciso olhar para as coisas como elas são e sermos mais concretos na abordagem.
Gostava de falar contigo sobre a importância de criar imagens num tempo rápido, em que estamos rodeados de imagens, informação.. visualizações, cliques, até mesmo distrações.. No fundo, qual é que achas que continua a ser a importância de criar uma imagem?
Criar uma imagem é também criar uma forma de olhar para uma coisa e estimular outra forma de olhar sobre essa coisa que foi criada. Qual é a importância de uma imagem num mundo de imagens, por que é que isso é relevante? Para mim é relevante pensar como olho para determinada coisa de uma forma e porquê dessa forma e como é que outra pessoa, a partir de outro ponto de vista, recebe essa coisa. Tu crias uma imagem para alguém olhar para ela. Uma imagem pode ser mil e uma coisas, e depois na relação com outra imagem, com intervalos, silêncios, ruídos, etc. Gosto muito de pensar na criação como num ensaio, então nunca é só sobre aquela imagem, mas tudo o que gira à volta dela e está para além dela. É mais por aí.
E nesse processo de criação de imagens, qual é a tua relação com o tempo? O tempo de processo para fazer e o tempo para o espectador absorver, se também pensas no tempo que a imagem vai durar no espectador..
Sim, eu gosto de deixar espaço em aberto. Há quem diga que o meu trabalho não é o que parece à primeira vista, porque eu não dou tudo, no sentido em que, quando apresento um conjunto de fotografias, vídeos, ou até um som que se transforma numa imagem ou uma imagem que se transforma num som- isso, para mim faz parte do mesmo universo- eu deixo sempre um espaço em aberto para que cada um receba de acordo com aquilo que sabe e que já viveu e não fecho a interpretação. Por muito que uma imagem possa partir da realidade e ser verosímil a qualquer coisa, é sempre uma nova realidade que é criada e uma nova realidade que vai ser percecionada por outros, de acordo com a sua própria realidade. Aí tens todas as outras questões.. Ou seja, não dizer’ isto é’ mas ‘isto foi assim em determinado dia’, mas aquilo que a pessoa vê já vai ser condicionado por muitas coisas.
Então gostas de deixar espaço ao acaso, de dar espaço para que a vida se revele, aconteça?
Eu acho que é um erro pensar que quando trabalhas a partir da realidade, que estás a fechar essa coisa, que não estás a criar nada de novo. Pelo contrário, quando tu crias uma coisa abstrata na sua essência, ela pode ser mais fechada do que uma coisa que tu capturas num determinado momento ou local e depois descontextualizas ou que colocas para ser vivida por outra pessoa, noutro contexto e noutro lugar. E isso pode deixar mais coisas em aberto e pode criar uma realidade diferente, do que se partires do abstrato ou do aberto em si e que depois fica nesse espaço do “aberto”, em que é tudo e não é nada…
E essa relação altera-se muito de formato para formato?
Sim, porque tens a questão da duração e do intervalo, e é no intervalo do som que existe o silêncio. No meu caso, trabalho com filme, fotografia, instalação, som, palavra… Cada um tem as suas especificidades mas todas elas permitem criar esses espaços. Às vezes uma imagem não precisa de nenhuma palavra mas é no título da peça que se abrem essas possibilidades…
É como se entrasses dentro da imagem e esquecesses o seu limite.
Exato, já disse isso uma vez. Gosto de imagens que “apontam”, para o que está para lá dessa coisa e não para o enquadramento. Quando eu reparo no enquadramento de uma imagem, ela deixa de ter interesse para mim, gosto de quando a imagem se expande e está a “apontar” para fora, isto é, para aquilo que ela nos permite imaginar. E isso é criado através de sensações e de espaços, que é uma forma de criar imagens particular. Nós temos formas de ver diferentes, por isso é que somos autores diferentes. Aquilo para onde estamos a “apontar”, é muito diferente de uns para os outros e o espaço que estamos a abrir, pode divergir muito entre duas pessoas que supostamente usam o mesmo formato/suporte.
E para isso é preciso distanciar, para ver com mais clareza?
Muitas vezes fico dez anos sem olhar para uma imagem, preciso desse espaço de não imediatismo. As imagens ganham qualidades através do tempo, espessuras. Também envelhecem e maturam. Ao olhares para uma coisa que marcou uma época, deixando passar o tempo, as imagens podem ganhar outros contornos. Essas imagens, ao longo do tempo, vão ganhando outras questões.
Falo da distância porque vi, noutras entrevistas que deste, que gostavas de ‘ter pensamento de fronteira’. Ou seja que gostas da fronteira, não sei como não lugar ou lugar simultâneo, e se daí podes olhar para um lado, para o outro…
A questão é que estamos sempre a criar fronteiras, é uma questão relacionada com a nossa forma de pensar á qual é preciso resistir por vezes. E, cada vez mais, sem nos apercebermos, quando queremos delimitar muito uma coisa e quando queremos escrevê-la ou caracterizá-la de forma bastante clara, diferenciada… quando diferenciamos muito as coisas umas das outras, estamos a criar fronteiras entre elas. Isto acontece muito no pensamento hoje em dia, cada vez mais. E muitas vezes aquilo que parece ser um avanço é, na minha opinião, um retrocesso, a nível de pensamento e de relações com o meio- eu incluo o Homem como parte do meio, do meio ambiente, da Natureza, é a mesma coisa, para mim, estamos integrados. A fronteira tem de ser encarada não como um não lugar, mas precisamente como um lugar. E o que fazemos com esse lugar? o que está a acontecer nesses lugares? Que injustiças? Esses lugares espelham aquilo que somos, pensamos e como agimos como um todo.
Lembrei-me agora de um ensaio que escrevi e que foi publicado há pouco tempo, em que falei de um filme que vi na Cinemateca, num festival, de uma realizadora alemã que era sobre a pena de morte nos Estados Unidos. Em off, ouvíamos cartas escritas por um condenado, eram as cartas que eles trocavam, mas a câmara nunca entrou no espaço da cela. Só ouvíamos a voz dele em off e víamos um programa de rádio, ao qual os presos podiam aceder e as pessoas podiam deixar-lhes mensagens. Ou seja, a câmara não chega a entrar nesse espaço que está a ser retratado essa distância consegue criar uma empatia e ao mesmo tempo um desconforto no sentido em que nos deixa a nós, espectadores e ouvintes, na nossa “confortável” liberdade, permanecendo nesse espaço de privilégio
Sim.
Pois, não nos cabe tomar essa decisão, se uma pessoa vai viver ou morrer…
Mas este filme que usou essa estratégia é extremamente eficaz. Existem distâncias que nos permitem criar proximidade. Ouvir a voz de alguém que não pode estar perto de nós, pode ser mais eficaz, nessa proximidade emocional, do que propriamente filmar essa pessoa de perto.
Ok. Qual a relação com o espaço do atelier? Até porque parece um trabalho que acontece fora desse espaço.
Certo. Eu durante muitos anos, disse que o meu ateliê era o mundo e tudo o que está à minha volta. Mas depois da experiência de ter ateliê, durante a residência que fiz em Berlim, na Künstlerhaus Bethanien, percebi que ter um espaço para experimentar, no sentido da criação de objetos em que possa expandir a sua escala, permitiu-me criar uma espécie de mural jigsaw com imagens e imprimir em grandes formatos. Num sentido prático, tornou-se importante ter esse espaço, também para convidar pessoas e poder discutir a minha prática num ambiente dedicado.
Então também é um espaço de convívio?
Sim, mas sobretudo de foco, de concentração.
E de planeamento?
Sim, estou constantemente a planear. Mas a sensação de ter o trabalho reunido num só lugar, é muito agradável e útil.

2- Installation view da exposição "Bela" na KünstlerHaus Bethanien, Berlim, 2016
Créditos: Tatiana Macedo

3- Installation View do filme "Seems So Long Ago, Nancy" no Museu do Chiado, MNAC- Museu NAcional de Arte Comtemporânea, Lisboa, 2014 Créditos: Tatiana Macedo




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