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  • 11 de jul. de 2023

Artista visual, a sua prática desenvolve-se entre a instalação, fotografia, o vídeo e o som e o seu trabalho já foi apresentado em diversas instituições e eventos, como a Culturgest, o MNAC, MAAT, Stedelijk Museum Bureau (Amsterdão), Tate Britain (Londres), Paris Photo (Paris), Photo Basel (Basileia), entre muitos outros. Venceu a 1ª edição do Prémio Sonae Media Art (2015).

A história desta entrevista é longa, já que era para ter acontecido há muito. Só há pouco me encontrei com a Tatiana no seu ateliê, numa solarenga tarde de março. Por isso, começo com uma daquelas perguntas bem velhinhas.


1- Retrato de Tatiana Macedo na DARDO Fundación DIDAC com projeção da instalação vídeo multicanal "Esgotaram-se os Nomes para as Tempestades", Santiago de

Compostela, 2023. Créditos: Carmen Fragoso (Didac)


Para começar com uma das perguntas antigas: A arte é a intemporal sombra do tempo que o questiona?

Há quem faça uma arte do seu tempo, estimulada pelo presente, mas também quem, ao aprofundar essas questões acabe por tornar esse pensamento intemporal. Na génese das coisas, existe sempre uma certa intemporalidade, uma certa raiz que é comum, não importa quando nem onde. Alguma arte é assim, não toda. Estas frases, ao quererem dizer muito, acabam por não dizer nada… Quando apontas para uma coisa específica e tentas estudar essa coisa e perceber o porquê de aquela coisa ser assim, naquele lugar e naquele tempo, então aí é que chegas a esse lugar. Essa é uma frase que é tão poética, questiono-me sempre que leio coisas desse género, porque existem análises de obras ou de trabalhos de artistas que depois não dizem nada daquilo que são objectivamente. Quando realmente queremos perceber por que somos assim ou reagimos de determinada maneira, é preciso olhar para as coisas como elas são e sermos mais concretos na abordagem.


Gostava de falar contigo sobre a importância de criar imagens num tempo rápido, em que estamos rodeados de imagens, informação.. visualizações, cliques, até mesmo distrações.. No fundo, qual é que achas que continua a ser a importância de criar uma imagem?

Criar uma imagem é também criar uma forma de olhar para uma coisa e estimular outra forma de olhar sobre essa coisa que foi criada. Qual é a importância de uma imagem num mundo de imagens, por que é que isso é relevante? Para mim é relevante pensar como olho para determinada coisa de uma forma e porquê dessa forma e como é que outra pessoa, a partir de outro ponto de vista, recebe essa coisa. Tu crias uma imagem para alguém olhar para ela. Uma imagem pode ser mil e uma coisas, e depois na relação com outra imagem, com intervalos, silêncios, ruídos, etc. Gosto muito de pensar na criação como num ensaio, então nunca é só sobre aquela imagem, mas tudo o que gira à volta dela e está para além dela. É mais por aí.


E nesse processo de criação de imagens, qual é a tua relação com o tempo? O tempo de processo para fazer e o tempo para o espectador absorver, se também pensas no tempo que a imagem vai durar no espectador..

Sim, eu gosto de deixar espaço em aberto. Há quem diga que o meu trabalho não é o que parece à primeira vista, porque eu não dou tudo, no sentido em que, quando apresento um conjunto de fotografias, vídeos, ou até um som que se transforma numa imagem ou uma imagem que se transforma num som- isso, para mim faz parte do mesmo universo- eu deixo sempre um espaço em aberto para que cada um receba de acordo com aquilo que sabe e que já viveu e não fecho a interpretação. Por muito que uma imagem possa partir da realidade e ser verosímil a qualquer coisa, é sempre uma nova realidade que é criada e uma nova realidade que vai ser percecionada por outros, de acordo com a sua própria realidade. Aí tens todas as outras questões.. Ou seja, não dizer’ isto é’ mas ‘isto foi assim em determinado dia’, mas aquilo que a pessoa vê já vai ser condicionado por muitas coisas.


Então gostas de deixar espaço ao acaso, de dar espaço para que a vida se revele, aconteça?

Eu acho que é um erro pensar que quando trabalhas a partir da realidade, que estás a fechar essa coisa, que não estás a criar nada de novo. Pelo contrário, quando tu crias uma coisa abstrata na sua essência, ela pode ser mais fechada do que uma coisa que tu capturas num determinado momento ou local e depois descontextualizas ou que colocas para ser vivida por outra pessoa, noutro contexto e noutro lugar. E isso pode deixar mais coisas em aberto e pode criar uma realidade diferente, do que se partires do abstrato ou do aberto em si e que depois fica nesse espaço do “aberto”, em que é tudo e não é nada…


E essa relação altera-se muito de formato para formato?

Sim, porque tens a questão da duração e do intervalo, e é no intervalo do som que existe o silêncio. No meu caso, trabalho com filme, fotografia, instalação, som, palavra… Cada um tem as suas especificidades mas todas elas permitem criar esses espaços. Às vezes uma imagem não precisa de nenhuma palavra mas é no título da peça que se abrem essas possibilidades…

É como se entrasses dentro da imagem e esquecesses o seu limite.

Exato, já disse isso uma vez. Gosto de imagens que “apontam”, para o que está para lá dessa coisa e não para o enquadramento. Quando eu reparo no enquadramento de uma imagem, ela deixa de ter interesse para mim, gosto de quando a imagem se expande e está a “apontar” para fora, isto é, para aquilo que ela nos permite imaginar. E isso é criado através de sensações e de espaços, que é uma forma de criar imagens particular. Nós temos formas de ver diferentes, por isso é que somos autores diferentes. Aquilo para onde estamos a “apontar”, é muito diferente de uns para os outros e o espaço que estamos a abrir, pode divergir muito entre duas pessoas que supostamente usam o mesmo formato/suporte.


E para isso é preciso distanciar, para ver com mais clareza?

Muitas vezes fico dez anos sem olhar para uma imagem, preciso desse espaço de não imediatismo. As imagens ganham qualidades através do tempo, espessuras. Também envelhecem e maturam. Ao olhares para uma coisa que marcou uma época, deixando passar o tempo, as imagens podem ganhar outros contornos. Essas imagens, ao longo do tempo, vão ganhando outras questões.

Falo da distância porque vi, noutras entrevistas que deste, que gostavas de ‘ter pensamento de fronteira’. Ou seja que gostas da fronteira, não sei como não lugar ou lugar simultâneo, e se daí podes olhar para um lado, para o outro…

A questão é que estamos sempre a criar fronteiras, é uma questão relacionada com a nossa forma de pensar á qual é preciso resistir por vezes. E, cada vez mais, sem nos apercebermos, quando queremos delimitar muito uma coisa e quando queremos escrevê-la ou caracterizá-la de forma bastante clara, diferenciada… quando diferenciamos muito as coisas umas das outras, estamos a criar fronteiras entre elas. Isto acontece muito no pensamento hoje em dia, cada vez mais. E muitas vezes aquilo que parece ser um avanço é, na minha opinião, um retrocesso, a nível de pensamento e de relações com o meio- eu incluo o Homem como parte do meio, do meio ambiente, da Natureza, é a mesma coisa, para mim, estamos integrados. A fronteira tem de ser encarada não como um não lugar, mas precisamente como um lugar. E o que fazemos com esse lugar? o que está a acontecer nesses lugares? Que injustiças? Esses lugares espelham aquilo que somos, pensamos e como agimos como um todo.

Lembrei-me agora de um ensaio que escrevi e que foi publicado há pouco tempo, em que falei de um filme que vi na Cinemateca, num festival, de uma realizadora alemã que era sobre a pena de morte nos Estados Unidos. Em off, ouvíamos cartas escritas por um condenado, eram as cartas que eles trocavam, mas a câmara nunca entrou no espaço da cela. Só ouvíamos a voz dele em off e víamos um programa de rádio, ao qual os presos podiam aceder e as pessoas podiam deixar-lhes mensagens. Ou seja, a câmara não chega a entrar nesse espaço que está a ser retratado essa distância consegue criar uma empatia e ao mesmo tempo um desconforto no sentido em que nos deixa a nós, espectadores e ouvintes, na nossa “confortável” liberdade, permanecendo nesse espaço de privilégio

Sim.

Pois, não nos cabe tomar essa decisão, se uma pessoa vai viver ou morrer…

Mas este filme que usou essa estratégia é extremamente eficaz. Existem distâncias que nos permitem criar proximidade. Ouvir a voz de alguém que não pode estar perto de nós, pode ser mais eficaz, nessa proximidade emocional, do que propriamente filmar essa pessoa de perto.


Ok. Qual a relação com o espaço do atelier? Até porque parece um trabalho que acontece fora desse espaço.

Certo. Eu durante muitos anos, disse que o meu ateliê era o mundo e tudo o que está à minha volta. Mas depois da experiência de ter ateliê, durante a residência que fiz em Berlim, na Künstlerhaus Bethanien, percebi que ter um espaço para experimentar, no sentido da criação de objetos em que possa expandir a sua escala, permitiu-me criar uma espécie de mural jigsaw com imagens e imprimir em grandes formatos. Num sentido prático, tornou-se importante ter esse espaço, também para convidar pessoas e poder discutir a minha prática num ambiente dedicado.

Então também é um espaço de convívio?

Sim, mas sobretudo de foco, de concentração.

E de planeamento?

Sim, estou constantemente a planear. Mas a sensação de ter o trabalho reunido num só lugar, é muito agradável e útil.



2- Installation view da exposição "Bela" na KünstlerHaus Bethanien, Berlim, 2016

Créditos: Tatiana Macedo

3- Installation View do filme "Seems So Long Ago, Nancy" no Museu do Chiado, MNAC- Museu NAcional de Arte Comtemporânea, Lisboa, 2014 Créditos: Tatiana Macedo








 
 

Pedro Sousa é saxofonista, figura importante da música improvisada. Acaba agora de lançar a sua editora Futuro Familiar, com os discos Rahu e Ketu, tendo editado, ao todo, 6 seis discos em 2022, entre os quais Má Estrela.

Começou pela guitarra elétrica e estudou escultura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. Ganhou a bolsa Ernesto de Sousa em 2014, atribuída a projetos experimentais ‘intermedia’.

Esta entrevista, que era para ter acontecido há uns anos por escrito, aconteceu agora finalmente, presencialmente, mas com algumas das perguntas que tinha pensado na altura.


Foto: Vera Marmelo


Questionar dá-nos mais liberdade do que afirmar?

Sim, a cem porcento. Diria que afirmar tem muitas nuances, apesar de questionar também ser uma questão muito lata. Afirmar, em termos de dogma, fecha portas… pelo menos da maneira com estou a ler a questão. As afirmações são importantes e, enquanto músico, estou sempre a afirmar, mas é uma afirmação que vem de um lugar de questionamento: de nós próprios, da música, da arte, do porquê de estarmos a fazer aquilo, etc. É uma questão de diálogo interno.

Mas a afirmação é necessária, eu pelo menos não consigo fazer trabalho apenas a questionar-me. Os meus trabalhos artísticos são uma afirmação, mas são uma afirmação que provém de um lugar de questionamento. Há um diálogo. Se dissermos que só afirmamos, não chegamos a lado nenhum e se só questionarmos também nunca vamos a lado nenhum. Tem mesmo de ser um diálogo.


Questionar como uma forma de abrir possibilidades e pensar mais nas coisas e afirmar como forma de ter certeza ou de expressar alguma coisa.

Sim! Isto remete-me para a música improvisada. Eu antes tocava música eletrónica, gostava muito de estar no computador a produzir, fazia beats e mixava. E perdia horas e horas e horas, porque as possibilidades são infinitas- as possibilidades são infinitas com qualquer instrumento. Podes passar a tua vida a tentar fazer aquilo e nunca vais sair dali, chega a um momento em que tens de dar um passo em frente e tens de te afirmar. Para mim, a música improvisada serviu para isso: quando estou a improvisar não tenho tempo, tenho de fazer uma coisa no momento. Claro que tenho um trabalho de estudo do instrumento (notas, escalas, som, etc), mas também tenho de chegar a um momento de tomar decisões, seja tocar em público ou gravar. Isso é afirmar.

E, com tempo, se tiveres um diálogo interessante ou frutuoso entre questionamento e afirmação, mantendo o equilíbrio, chegas a um ponto em que começas a perceber porquê que questionas de certa maneira e onde é que os teus questionamentos te levam e como é que isso define as tuas afirmações, e ainda, como é que as tuas afirmações te definem como artista. Essa é a parte gira da coisa, quando as coisas se ligam e começas a perceber as tuas tendências, a tua linguagem, os teus vícios e como é que os limpas, ou o motivo de gostares ou não daquilo. Assim, as coisas vão ficando cada vez mais certeiras. É um processo.


E fazes esse processo, se calhar, mais de questionar a estudar e de afirmar em palco, ou um bom concerto/estudo concilia sempre as duas coisas?

As duas, é tudo! É aquela treta do ‘the artist is always working’, o que é uma frasezinha engraçada e que tem muito que se lhe diga, mas é muito real. As vivências premeiam tudo: a cidade influencia, os amigos, a adolescência, os gostos musicais, os gigs que viste ou não viste. Tudo isso acaba por ter um papel cumulativo. Depois, começas a filtrar, com os anos e as camadas e a ganhar um compêndio pessoal. E para te expressares, vais buscar as coisas, mesmo que subconscientemente. As coisas estão todas lá, os concertos, as ressacas, tudo… Nesse aspeto, estamos sempre a borbulhar.

Por exemplo, o Má Estrela esteve imenso tempo a borbulhar na minha cabeça, uns dois ou três anos, e quando houve uma oportunidade, tive de me afirmar. Questionava-me se fazia sentido, se estava louco, porque estava a pedir coisas completamente insane a toda a gente e a pedir que colasse. Acho que não seria capaz de o fazer há uns anos atrás! Porque, lá está, começas a ganhar outra confiança e noção das capacidades e limitações. Mas apesar disso, tu acreditas e vais insistindo e pensas que na hora h, no concerto, aquilo vai fazer sentido.

É um trabalho constante, estás sempre a pensar naquilo… deitas-te a pensar naquilo, acordas a pensar naquilo.. ou agora, que estou a pensar que tenho de ir para o estúdio. Estás sempre na noia, nem que seja nos dias em que não foste tocar o teu instrumento, mas estás a absorver coisas. As coisas acabam por ser pertinentes. É um diálogo interno, tens é de perceber como é que a coisa se manifesta!


A criação parte da ausência, da necessidade de criar algo que não existe ou a novidade surge durante a criação?

Se te referires a criar uma coisa que não existe, isso é mais ou menos brincar com o nada e é muito difícil. Acho que isso é raro, ou que nunca ninguém acordou e decidiu inventar só. Somos todos Alexander Flemings em potência, vamos ter acasos, acidentes, trabalho, claro. Se calhar, ele não é o melhor exemplo, já que foi por não limpar uma proveta acabou por descobrir a penicilina… Mas mesmo quem trabalhe pouco pode ter os melhores acidentes, estou a ser injusto.

Acredito muito que há pessoal genial, mas que ninguém acorda de um dia para o outro e inventa uma coisa, ou ainda estou para ver o exemplo... É cumulativo. A raça humana funciona de forma micro e macro, individualmente e como sociedade transversal, influenciamo-nos, apanhamos e bebemos uns dos outros.

É como o hiphop… sem o funk não haveria o hiphop, se não houvessem samples provavelmente também não, mas quem inventou o sampler não estava pensar em inventar o hiphop… é sempre cumulativo. Aquilo que se calhar torna essas leituras mais dúbias ou cinzentas é o facto de teres momentos na história muito acelerados e catalisadores. Por exemplo, o bebop que apareceu num período relativamente rápido, tinhas a música swing, que vem do blues, depois a cena evolui para o jazz, tens o Duke Ellington e o Glenn Miller… E com a Segunda Guerra Mundial e a invenção da rádio, com as gravações em vinil, os músicos lixaram-se.. as orquestras tornam-se bandas pequenas e os músicos estavam a fazer greve e a recusarem-se a ir à rádio, porque ganhavam dinheiro era com os concertos- é a mesma coisa hoje em dia de estarmos flexing contra o Spotify, aquilo vai ter de mudar de uma maneira ou de outra, mas é óbvio que o streaming está aqui para ficar… A rádio também era uma tecnologia nova e os músicos, em contração, trancaram-se … e, de repente, quando voltam à luz do dia com a Segunda Guerra Mundial a acontecer e a Grande Depressão e pouco dinheiro… já não podias ter grandes orquestras.. mas naqueles anos em que fizeram greve, os músicos tinham estado a estudar que nem animais… tinhas o Dizzy Gillespie, o Charlie Parker, que mais ou menos inventaram aquele género. Mas nem isso foi o trabalho de uma só pessoa, o Dizzy é considerado, em termos harmónicos e teóricos, o gajo que mais avançou o Bebop, mas ele não o fez sozinho, e nem foi aquele que tocou aquilo melhor, esse foi o Charlie Parker, que nem era um grande teórico mas que tocava muita bem o instrumento, são coisas diferentes e cada um com as suas potências. O Charlie Parker esteve anos trancado em casa, segundo dizem, atiraram-lhe um prato a dizer que ele não valia nada, e ele foi para casa estudar todas as escalas, todas as variações das escalas, a estudar as partituras, a tocar em todas a variações tónicas… e quando saiu dali era um super-herói, até nisso é comparável, claro que não nasceu ensinado e é dos melhores saxofonistas de sempre. As coisas são processos!

A ausência pode ser tida como uma coisa que motiva e empurra, para perceberes que há mais, que há um futuro. Que há um caminho, uma coisa para desbravar, mas tu não sabes o que ela é, se não ela já estaria feita. Ninguém acordou um dia e inventou uma cena, não funciona assim…


Foto: Vera Marmelo


Falando um pouco sobre o teu percurso, começaste pela guitarra, estudaste escultura, tocas saxofone, como é que estas coisas foram acontecendo e se foram relacionando?

Toda a gente ouvia música com guitarras, eram os 90s e eu gostava muito de guitarras elétricas. Estávamos a ouvir imenso Pink Floyd, Soft Machine ou Radiohead e coisas assim, toda a gente sabia tocar Nirvana na guitarra, era um clássico! Eu nem era o maior apaixonado por música, isso foi uma coisa que foi crescendo em mim, fazia outras coisas, gostava mais de desenhar, queria ser pintor, depois quis ser arquiteto. Mas fui gostando mais de música e comecei a tocar numa guitarra acústica da minha mãe e um dia cheguei a casa e tinha uma guitarra elétrica. Comecei a passar os dias nisso.

Depois conheci o Gabriel [Ferrandini] na rua, começámos a tocar, encontrámos outro amigo que tocava baixo, fizémos uma banda e isso levou-nos ao resto. Nessa altura, devíamos ter 17 e começámos a interessar-nos por jazz e música marada. É que eu mudei radicalmente de gosto musical aos 15/16, deixei de ouvir o que ouvia para trás e comecei à procura de mais, tinha os fusíveis todos a acender. Estava fascinado, queria descobrir bandas, sonoridades, estilos ou coisas que sabia que deviam existir e procurava aquilo. E isso começou a manifestar-se nos nossos ensaios. Começámos a mexer com delays e pedais, o que permitia fazer sons estranhos, comecei a fascinar-me por esse mundo que me parecia escultura ou arquitetura em som.


Queria-te perguntar exatamente sobre isso, se achas que as coisas estão todas relacionadas, ou seja as áreas influenciam as outras. Ou por exemplo, se o facto de o teu percurso ter sido assim, te criou uma abordagem diferente ao saxofone.

Sim, sim! Tudo dialoga. Tudo influencia!

Se não adorasse música estranha, não começava a fugir do curso de escultura como comecei a fugir ou a adaptar-me a ele como comecei a adaptar-me. No segundo ano da faculdade, já tinha dado o meu primeiro concerto de música estranha, com os VGO, era música improvisada, maradices, só fazer sons. Havia pessoal que ia para lá tocar jazz, ou beatrock e, se calhar, metade daquilo não fazia sentido, mas foi uma escolinha, perceber que tudo era possível. Portanto, esse acumular de influências, fazem-te perceber que tudo dialoga e tu é que tens de descobrir como é que vais fazer essas pontes!

Quando comecei a estudar saxofone, percebi que aquilo tinha a ver com o curso de escultura, ainda sem saber como, mas pensava sempre nisso! Com o tempo, aquilo foi fazendo mais sentido. Hoje em dia há sons que acho arquiteturais, ou sons que parecem manchas. Isso tem também a ver com a ideia de sinestesia. É tudo válido, temos é de analisar e absorver, não pode ser à superfície. As coisas quando são à superfície, não são absorvidas.


Achas que existem cada vez menos fronteiras entre as áreas ou menos limites dentro de cada uma, ou se calhar estamos mais abertos a isso?

Estamos mais abertos a isso, é um trabalho que vem de há muito tempo atrás, diria que se calhar começou com as vanguardas. Quando se inventou a fotografia e depois o Expressionismo, que vem, de certa maneira, como uma reação mas também tem a ver com um diálogo… Com a fotografia conseguias capturar uma imagem fielmente, como estás a ver, é aquele momento e, por isso, o desenhar realisticamente ficou meio dúbio… Teve de haver um diálogo e por causa disso surgiu um estilo, um género do caraças e a pintura renasceu por causa daquilo.

As fronteiras foram-se diluindo mas continuam a existir, mas ainda bem que também vão existindo. Também têm de existir paredes, as limitações são fixes.


Claro!, o que também volta um bocado à primeira pergunta, do ter de afirmar!

Sem dúvida. Pois, de facto, está muito relacionado…. Precisas desses contextos, dessas paredes para delimitar um bocado, para contar a tua história. Muitas das afirmações têm a ver com isso, com uma reação também ou com a procura de uma narrativa. Sobre a procura de um diálogo que faça uma expansão ou que estabeleça um novo paradigma, ou que faça saltar de abismo para ter outro à frente. Mas tem de haver um processo, um fogo interno!


Falando um pouco mais sobre isto, como é que se podem processar e agregar as diferentes influências? Ou seja, criar a partir delas numa linguagem própria?

É complicado! O mais comum se calhar são as instalações com som, o que por um lado é óbvio, por outro não. Se calhar anda não houve um crossover assim tão interessante entre pintura e outras artes novas, muitas vezes acaba por ser o vídeo. Na minha opinião, a pintura tem vindo a sofrer de uma crise de identidade há algum tempo, as vanguardas deixaram-na num lugar bastante crepitante. Acho que a escultura, nesse aspeto, tem vantagens, porque até recentemente estava mais ligada ao Classicismo, estava mais presa e agora solta-se, indo para outras áreas ou a relacionar-se com a arquitetura, como a Land Art, ou Minimalismo. Foi mais tardio, talvez. Ainda há muita coisa que pode funcionar ou ser feita e por isso se calhar é que vemos um crossover de experiências sensoriais com som. Muitas vezes tem a ver com privação sensorial, quando eliminas o fator visual e estás no escuro e tens uma coisa que não consegues perceber bem o que é, mas é uma escultura mal iluminada, tens um som.. Nem tudo é assim tão fácil, o cinema também tem dificuldade em se afirmar fora do seu meio, tens de ter uma tela, um ecrã…


Volta-se à questão dos limites, portanto, e da sua importância.

O Tarkovsky, por exemplo, adorava o próprio meio do filme e, para ele, aquilo era ‘escultura em movimento’. Seria interessante saber o que ele teria para dizer sobre a atualidade, sobre a cena multimédia, até porque era um ótimo filósofo. Para ele, o crossover era esse, era a captura da tridimensionalidade, de uma verdade que só ele percebia, que ficava impressa em filme. Por isso é que para ele aquilo era uma escultura em movimento e não apenas um fotograma, tem a ver com uma afirmação de tempo que a fotografia para ele não capturava de maneira tão real. Ele dá mil voltas sobre o assunto…

Os crossovers são complicados e são de onde brotam coisas interessantes e muita gente está a tentar, eu próprio tento sair só da música per si. Quando estou a dar um concerto com saxofone e a tentar fazer coisas com os Reel to Reel, gosto por me pôr a pensar fora da caixa.

Sei de um concerto há uns tempos atrás do Gerald Lebik, um saxofonista polaco que se fartou do sax e começou a interessar-se por música eletrónica - que tem, de certa forma, um percurso inverso ao meu - e de repente aquilo estava a levá-lo para performances e instalações. Ele começou a dar concertos em que ele usava latas de ar compresso, com tempo limitado, e pressionava aquilo, criando narrativas sonoras. E a sala estava cheia de fumo e, como o ar estava dentro de uma lata, a temperatura era mais baixa. Por isso, a sala ficava mais fria, eu acho genial que por estares a ver um concerto, fique mais frio. É muita fora… É inevitável dizer que isto nos abre portas!


Foto: Vera Marmelo


Os fragmentos dos outros e a continuidade que nos damos permitem-nos ir encontrando uma linguagem cada vez clara?

Nim, outra vez. Se pegássemos nos cânones ou nos filósofos de arte antigamente.. os artistas e as pessoas viviam disso e para eles as cenas eram claras. As afirmações eram super dogmáticas, questionava-se pouco, havia pouco espaço para tal, fosse pelas limitações religiosas, sociais ou de autoridade. Mas as pessoas viviam com certezas e, na realidade, cada vez mais avançamos para incertezas. E isso é a coisa gira da arte, porque a arte é uma manifestação de como é que nós vivemos em sociedade mas acho que vivemos com imensas incertezas, não é?

No século XIX acreditava-se no progresso e avanço tecnológico, a ideia do futuro era otimista e certeira. Hoje em dia, parece que as imagens que temos do futuro ou são pouco existentes ou são distopias. Muitas vezes são coisas negativas, perdemos muito do nosso otimismo, isso teve a ver com a Segunda Guerra Mundial, o climate change e a nossa incapacidade de lidar com a coisa…

E agora, pós-modernismo, no mundo virtual, temos o mimetismo das redes sociais. Somos seres repletos de ansiedade e inseguranças e acabamos por nos copiar e por procurar segurança ou um apoio nos likes e na dopamina. São só tendências, as selfies, as duckfaces, esta cultura toda... pode parecer arrogante ou boomer, mas.. Hoje em dia podes dar-te com uma pessoa como tu, com os mesmos interesses ou referências, que viva na China, por exemplo… Mas as coisas não estão montadas por razões ideológicas mas por dinheiro e poder, descobriu-se que os algoritmos ganham por explorar as nossas fraquezas, que vêm ao de cima. Vejo isso com malta um pouco mais nova do que tu, eu já cresci com Internet, já estou cheio de nóias, mas acho que agora ainda se leva com mais porrada mental. Para mim, havia as cenas dos tipos populares da escola e das marcas xpto, mas começava e acabava aí. Hoje em dia há um buraco difícil de ser preenchido.

Aliás, o Tiktok é o suprassumo dessa porcaria, porque literalmente só vive de trends, só vive de imitar e de fazer versões melhoradas do que os outros estão a fazer. Acho difícil ver o que vem depois do Tiktok.. Quer dizer, ao longe é sempre óbvio... Tens agora o BeReal, de certa forma como reação a ser tudo falso, então agora é ‘ah temos de voltar à honestidade’, epá.. aquilo é uma treta!

Portanto, é complicado.. vivemos com imensas inseguranças! Podemos não perceber o que o futuro nos traz ou ser pouco otimistas porque nos custa olhar para o futuro, por acharmos que pode ser assustador ou triste..

Mas vivemos de fragmentos, sem dúvida: de dopamina, de hashtags.. Mesmo em termos de cultura, estamos a viver fragmentados, porque as pessoas estão a fragmentar o seu attention spam, está cientificamente provado.

Ao mesmo tempo que caminhamos para as incertezas, vamos abrindo o leque e vamos desbravando. O conhecimento é mais vasto do que aquilo que alguma vez poderás explorar. Tem a ver isso, o nosso conhecimento nunca foi tão vasto ou incrível quanto agora. Mas se conseguires ser positivo, é fascinante..


Explorar o desconforto é uma maneira de nos redescobrirmos?

Claro! O desconforto tem a ver com forçares-te a vencer medo e preguiça, as duas coisas clássicas. Estás a tentar explorar-te interiormente, perceber a tua alma, diria… tentas estabelecer limites. É uma maneira de te definires.

Acho muito triste começar a reparar que muitos dos meus amigos estão muito definidos: sabem tudo o que querem, como vai ser amanhã, o que comem, chegam mesmo a recusar-se a coisas... se não for na comida, é na música… Eu tenho que questionar, a vários níveis.

Por exemplo questiono-me muito como o álbum Má Estrela vai envelhecer, sendo o álbum de que mais me orgulho. Como os últimos álbuns dos anos 80 do Miles Davis, que agora, dando a volta, fazem mais sentido outra vez, mas houve uma altura em que já não fazia sentido; depois há coisas timeless, os álbuns do Coltrane acho que nunca vão envelhecer mal, têm outra coisa, uma espiritualidade, outra verdade. O Miles também trabalhava com verdade, claro, mas de outra maneira.. Se ele tivesse uma conta de Internet hoje em dia, teria uma mega conta e perceberia bem aquilo, aquilo era racional, trendy, vanguarda.

Acho que reinventar-nos tem a ver com isso, sair do conforto. A zona de conforto é das coisas mais perigosas para artistas, acaba por ser uma armadilha, mas claro que tens de ter sempre uma rede de conforto. Eu quando estou a tocar, a fazer respiração circular e a esforçar-me para ir a cenas novas mas sei que se fizer aquela sequência de dedos, vou ter tempo.. É nisso que acredito, isso é das coisas mais certas.. Isso é das coisas mais importantes e das que mais gosto. Mas esse desconforto, de adrenalina, de redefinição, do perceber que esticaste o teu limite e perceberes-te melhor, saber que há mais mais à frente e que se calhar para a próxima ainda fazes mais.. É fixe puxares por ti.


Lançaste agora a tua editora, a Futuro Familiar, fala-me um pouco sobre isso.

A label, também uma coisa que já queria fazer há anos, vem do facto de ser difícil para mim editar música, tenho muito mais coisas para editar que editadas. Há muitas coisas na gaveta que acabaram por não sair e tenho pena mas neste momento não vão sair de certeza. O meu trabalho é muito presencial, nos concertos, as coisas são muito específicas. E se não começo a gravar as coisas a e pô-las cá fora, não há relevância ou obra. Não tem tanto a ver com ego, mas com obra. Quero deixar uma obra, já que estou vivo.

Se não, podia receber um salário fixo, o que não tenho, ou sabia a que horas tinha de estar a fazer o quê ou a dormir e o que tinha para gastar, etc. Mas em vez disso só tenho noias.. mas isso também empurra, lá está. Eu não tinha como escoar isso: a Futuro Familiar é a desculpa para fazer isso/querer fazer isso com outros e não só para mim.

É dúbio, ainda há muito a definir.. tenho de pensar como é que a coisa se vai manifestar para a frente, é complicado! É uma desculpa para escoar material… O nome tem a ver com muitas coisas, nomeadamente o facto de ter nascido numa casa que se chama Futuro, era a minha casa de família e também foi onde vivi sozinho pela primeira vez (também tenho um álbum com esse nome). E tem a ver com tudo o que falámos para trás, de acreditar na transformação, dos acidentes e do trabalho. Funciona como um entendimento duplo, o futuro é familiar e transforma-se…


Foto: Pedro Alfacinha


E quais são os planos para o futuro ou quais são os próximos gigs?

Tenho algumas coisas marcadas e são assim mais fancy, o que é fixe. Vou ter agora dois concertos com os Mão Morta, na Culturgest e no Gnration, mas ainda gostava de um terceiro- isso é janeiro.

Mas quero muito gravar e por isso não quero dar tantos concertos (o que eu adoro e dá imensa adrenalina), mas tenho tantos projetos na minha cabeça… Queria fazer um álbum a solo, isso é a minha prioridade deste ano, tem de ir para a fábrica.

Depois março é um caos, tenho uma performance no Maat, para a qual estou muito excitado mesmo, nem acredito que vai acontecer! Também vai haver uma espécie de follow up de Rahu e Ketu em que vamos tentar fazer uma mini tour, neste momento temos três concertos apalavrados pelo país. Também tenho mais um solo na ZDB, a abrir para o Alex Zhang Hungtai. E temos de fazer o lançamento do A Cloud at Rest!. Depois para Futuro Familiar, tenho de gravar o novo álbum de Má Estrela, tenho de gravar com a Violeta Azevedo, para o que já tenho ideias e sei onde e como quero fazer o concerto, mas é complicado... Também vou ter gigs no Verão, finalmente! E ainda há a ópera, a Vaia Viva, que tem de ir para a frente. Até agora foi só um ensaio, em que não tinha um monte de coisas… Também queria gravar com um coro…. Claro que não sei se isto vai acontecer tudo… só algumas coisas este ano já era muito bom…


Viver os momentos como se fossem os primeiros ou os últimos?

Não sei responder! Acho que tenho tendência mais para os últimos, mas não vivo muito assim. Estou sempre a pensar que a vida é mais larga do que comprida, o tempo passa rápido. Isso assusta… o tempo não é ilimitado. Temos de aproveitar ao máximo! Gosto de absorver e tentar experienciar o máximo. Mas sou mais fatalista, penso mais na última vez. A primeira vez é fixe mas ao mesmo tempo não é… Mas gosto de experimentar, quero aproveitar o tempo. É mais o carpe diem.

 
 


A criação reflete o que os outros são mas com a nossa linguagem?

A criação é um processo de trabalho. Uma tentativa de criar uma linguagem que seja o

nosso reflexo e, se formos bem sucedidos, o dos outros.


Na fotografia, às imagens dos sítios somamo-nos a nós?

A fotografia é mais sobre quem a faz do que sobre o que se fotografa.




A arte é uma extensão daquilo que somos?

A arte faz parte daquilo que somos.


Há sempre mais perguntas que respostas?

Há sempre perguntas. Haverá respostas?

 

Quando ficamos sem luz, fazemos o quê?

Usamos um flash.

 

Seremos sempre incompletos mas completamo-nos uns aos outros?

Gostaria que fosse assim, não sei se é.





fotos: do próprio

16 anos

 
 
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