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  • 26 de jul. de 2019

Sem curiosidade e ousadia, não existem ferramentas para criar?

Acho que existem, mas talvez sejam piores. No meu caso, mais a curiosidade do que a ousadia. Eu tendo a ver mais a ousadia como uma consequência do que como uma intenção. A curiosidade é uma coisa que eu alimento porque acho que é uma coisa que se não fores sempre ativo tende a desaparecer ou a morrer com o tempo. Tento manter isso vivo!

Tento não pensar muito em ousadia nesses termos porque acho que deve mais uma consequência. Acho que toda a gente que tem a intenção explícita de ser assim muito ousado, à partida não está ser honesto, mas é uma intenção honesta se fores ousado como uma consequência daquilo que és. Eu, pelo menos, sempre vi as coisas assim. Acho que sim, sem dúvida, a curiosidade é uma ferramenta muito importante. No meu caso e se a ousadia acontece, é mais como uma consequência.



Explorar o desconforto é uma maneira de nos redescobrirmos?

Sim! Não nego que o que me vai motivando a fazer canções novas seja o desconforto e a exploração disso. Portanto, acho que concordo.


Em cada novo disco tento não só pegar pelos assuntos que ainda não peguei, como pegar pelas coisas que eu acho que fogem ao óbvio. Ou não, na verdade. Será que o que é confortável e o que é, à partida, certo, não é um bom assunto para uma canção ou para o que for? Ou seja, será que o céu ser novamente azul a cada dia, não é um bom assunto? E sendo que isso não traz nenhum desconforto, na volta, é também. Por isso, acho que o desconforto pode ser uma boa ferramenta e uma boa coisa a explorar. Acho que, sem querer criar níveis do que é mais fácil ou do que é mais difícil, a contradição e aquilo que à partida não está certo é um assunto relativamente fácil ou eu, pelo menos, tenho essa facilidade. Se há um carro que não tem uma roda, à partida, é mais fácil dizer coisas sobre ele, do que se o carro for exatamente igual a todos.


Neste último disco, tentei que as letras falassem de coisas mais naturais e certas e menos desconfortáveis, tentando encontrar nelas um espaço que fosse meu. Inevitavelmente, toda essa ligação que fazes entre os assuntos não pode ser vista pelos assuntos só por si, também tem muito que ver com a roupagem estética e com a forma como contas os assuntos. Ou seja, o desconforto contado de uma forma ou de outra pode ser a diferença entre ser ou não ser uma coisa desconfortável. Se te estavas a referir à música ou algo que as pessoas façam com intenções artísticas, poder ser uma forma de lidares com o que está dentro de ti e te é desconfortável ou que não entendes, acho que sim e acho que isso faz bem às pessoas. É uma coisa que quando começas a ter alguma ferramenta, pode tornar-se repetitiva. Pode parecer antagónico, mas é mais fácil falar do que não compreendes, eu sinto isso. As coisas que não compreendes não te deixam a pensar e não te ocupas disso, porque quando falas sobre elas não é tão fácil.



Este último disco é mais sobre o amor e a morte, talvez seja mais maduro. Como vês isso?

É mais sobre o ciclo da vida. Há uma distância de ano e meio entre o segundo disco e o ‘Cara D’Anjo’ e entre estes dois há uma distância maior. Precisava de recuperar essa calma de me isolar e de fazer um disco com um ritmo mais lento. No segundo disco, senti que já tinha conquistado algum espaço, as pessoas já me davam atenção e neste disco posso não falar tão alto. Também pela minha vida pessoal, acabei por me focar mais nesses assuntos. Este disco tem mais análise social sobre a forma como olho para tudo o que acontece e reconheço que isso possam ser coisas um bocadinho mais adultas. Já não faz sentido fazer discos tão adolescentes, o que não significa que não volte a fazer discos com um ritmo mais rápido. Eu já começo a ter algum domínio sobre as ferramentas, já me conheço musicalmente e a minha música já é menos ingénua. Este disco é menos ingénuo e o outro ainda é um bocado adolescente. Sempre quis pegar nos assuntos deste disco, mas acho que tinha receio da seriedade e do compromisso. Este disco ao vivo é mais pesado, já não tenho a mesma leveza antes de ir para palco, agora tenho um compromisso mais sério e entregue.


Acho que isso também se nota nos concertos.

Eu não tinha vontade de fazer um disco colado ao outro e também não iria ser uma surpresa, mas posso voltar lá e hei-de fazê-lo porque tenho a consciência da sua importância. Quero continuar a fazer discos que sejam diferentes uns dos outros. Mas também quero escrever um disco que seja familiar do segundo, acho que ‘O Sol Voltou’ é um primo muito afastado que só vai lá a casa numas festas com muitas pessoas [risos].E quando fizer isso, já terei mais mundo, que foi algo que este disco me deu. Agora já sei que posso fazer diferente, o que é muito importante!





Sem ausência não há criação, não há vontade de dar algo que ainda não está explorado?

Mas sem ausência de quê? Ahahahah agora sou eu.


De qualquer coisa que faça falta, ou que deixe saudades.

Ok! A saudade é uma palavra nossa mas já em todo o mundo foram escritas músicas sobre isso. Por exemplo, se fôssemos contar canções sobre ausência e finitude, teríamos muitas. Só numa fase muito adulta é que se aprende a lidar com o fim das coisas, eu acho que ainda não aprendi. Quando chegas a uma idade mais avançada ganhas uma frieza para lidar com a morte ou com a mudança, se não, ficas louco. Acho que há criação sem ausência. Mesmo que cries frieza, a ausência é sempre assunto, nem que seja para dizeres que já não importa, mas se o dizes é porque importa. Gostei da questão, é um ótimo exercício.


Gostei da tua interpretação, mas referia-me à ausência como a falta, como um vazio. No fundo, como algo que não existe e que esse artistas vai criar , um espaço vazio que o artista vai completar... mas talvez seja mais pretensioso!

Não acho que seja pretensioso. Eu identifico-me porque, na minha cabeça, oiço muitas músicas que não consegui fazer, nunca uma música foi aquilo que quis que ela fosse. Claro que, cada vez mais, vão sendo o que quero, mas é uma frustração e uma surpresa (às vezes podem ser melhores!). Eu faço músicas no sentido de ser ouvinte e querer que as músicas existam. Ao compor, junto muita coisa. Mas é na busca entre o que querias que fosse e o que realmente é que enriqueces muito.



Usas as tuas músicas para lutar contra o que te incomoda, mesmo que seja dentro de ti?

Sim, claro. Já ouvi teorias de músicos que só conseguem compor quando estão muito mal e outros que só quando estão muito bem. Existem momentos mais inspirados do que outros, mas eu vivo disto, por isso, seria muito mau se todos os dias acordasse à espera de uma luz. Há dias em que fazes mais do que em cinco meses, e isso sabe tão bem! Mas talvez quando estamos mal, usamos a música como veículo para expô-lo numa luta, para ficar melhor. Não sei se quando estou incomodado escrevo melhor, mas pelo menos empenho-me mais, se não, desleixo-me.





Cada vez há mais ferramentas para sermos diferentes e somos cada vez mais iguais, ou, pelo contrário, temos menos ferramentas por causa das ‘maiorias’ que nos tentam tirar a liberdade?

É uma questão muito interessante! Acho que a internet e as redes sociais permitem que as pessoas que se queiram identificar com outras pessoas não tenham de andar à procura seja onde for. Hoje em dia, se quiseres criar identificação tens todo um mundo, para coisas boas e coisas más. Mas deu mais força a pessoas que se sentiam excluídas. Existem muitos grupos de pessoas que se sentiram com força devido à net, porque, se não, seria difícil. De facto, a junção de pessoas torna-nos mais fortes.



Por falar em Internet, começaste a lançar músicas enquanto Cão da Morte, no MySpace…… o que pensas da tua evolução?


Pois foi, nem eu sei o que me aconteceu. A música já foi tudo para mim: ocupação, forma de expressão, forma de me sentir fixe, um emprego - em todas elas aprendi coisas certas e erradas. Eu nunca pensei que iria ter uma carreira na música! Também passei momentos difíceis e houve fases em que tudo o que tinha à minha volta não era muito favorável para que continuasse. Mesmo com a net, houve momentos em que me questionei. Nem os meus amigos músicos ouvem. No fundo, não questionei o fazer músicas mas sim o editar e tocar ao vivo. Mas questionei-me muito e a resposta veio com o público.

Eu sinto menos diferença de ter 50 pessoas a gostar ou 5 000, do que de ter de 0 a 50. Nota-se mais e sinto-me grato às pessoas que pagam para os concertos e que ocupam o seu tempo a vê-los. Isso ainda me assusta! Ai, a quantidade de pessoas que pagam para me ver, porra! Cada vez que subo ao palco quero tocar como se fosse a última vez, não me importo de suar ou de ficar sem voz e era totalmente incapaz de tocar bêbado!


Que tens andado a ouvir ultimamente?

Por acaso, não tenho andado a ouvir, como acabei agora o disco preciso desse tempo e dessa fase. Mas depois vai haver uma fase em que vou ouvir muito!


O nosso corpo é quem nos procura e as sombras quem vamos encontrando?

Talvez… essa frase é um bocadinho triste porque estás a dizer que estamos sempre sozinhos. Uma sombra é uma extensão de ti próprio e à partida é uma segunda coisa. Porque é que dás esse papel aos outros? Explica-me!

Eu não pensei nesse sentido triste. Eu pensei na sombra como algo que está sempre a mudar, porque nós mudamos assim como a luz. Se a luz muda, a sombra também.

Confesso que interpretei de uma forma um pouco niilista, como se fosse: nada vale a pena.

Não foi nesse sentido! Mas dá-lhe o sentido que quiseres… nesta pergunta, deixei-me levar só pela piada das palavras. Era como se a sombra fosse a nossa parte espiritual e emocional, no fundo queria dar uma 'função' à sombra.

Já estou a perceber! [silêncio] Mas isso é mais um poema, é interessante, mas é uma visão muito tua. O que nos alimenta é mais quem gosta de nós, do que de quem nós gostamos… Raquel, o que achas? Eu vejo isto de muitas formas possíveis… não é fácil!

Raquel - Não aceitamos o que é bom para nós? Acho que tem muitas interpretações possíveis!

Há uma relação de influência entre o corpo e a sombra, óbvio. Quando o corpo muda, a sombra muda. Tu estás a dizer que quem nos procura define quem vamos encontrar. Umas coisas atraem outras, e quanto mais puxas uma coisa, mais coisas vêm ter contigo. Esta foi a interpretação que me fez mais sentido, depois de tantas, o que é interessante! Agora já é positivo e utópico, se quiseres muito que uma coisa aconteça, ela acontece. Eu conheço pessoas assim! Por exemplo, o Filipe, que me arranja os instrumentos, diz-me que sou muito cético e que devia acreditar mais nas coisas. Há muita gente que pensa assim!



Questionar dá-nos mais liberdade do que afirmar?

Sem dúvida. Essa é fácil! Questionar é mais fácil porque não exige compromisso. Quando afirmas, estás-te a comprometer e uma pergunta é a forma menos comprometida de interagires. Até há a expressão ‘perguntar não ofende’ porque as pessoas lidam melhor com o assumires que não sabes uma coisa. Uma questão é isso, mesmo que saibas, mas há truques… Assumires que não sabes uma coisa, torna-se à partida numa coisa empática.

E a pessoa que questiona acaba por ser mais livre, porque, na verdade, como está sempre a questionar pessoas, acaba por conhecer muito mais e ter muito mais mundo e noção. Há muitas situações em que gosto de dar a minha opinião e também há muitas em que sei que não vou concordar, mas como me está a interessar e estou a gostar da forma como ela explica, eu oiço porque vou aprender mesmo que não concorde. Quando ouves e filtras (sim, porque o teu entendimento tem de filtrar), aprendes muito mais e automaticamente tornas-te mais livre. Não acredito que a ignorância liberte! O conhecimento é que liberta, com todas as suas vicissitudes… Eu não concordo com essa ideia de que quanto menos sabes mais contente és, mas há muita gente que diz isso. Eu não tenho a certeza disso!


Entrevista feita presencialmente, gravada e depois transcrita

15 anos

Guess what, desta vez as fotos não são da Vera, mas podiam ser ;)

Fotos: Neuza Rodrigues

 
 

Os fragmentos dos outros e a continuidade que nos damos permitem-nos encontrar uma linguagem cada vez mais clara?

- Os outros ou o trabalho dos outros é sempre importante para nós. Não só na área da música como também noutras disciplinas sejam elas artísticas ou não. Servem de inspiração e referência para a criação. 

Depois é importante fazer a música como um exercício e ir depurando o discurso e a identidade.





Sem música não há dança ou o silêncio traz-nos mais liberdade?

- Silêncio não é música nem é o terreno que leva à dança. 

É a música que leva à dança mas o silêncio é muitas vezes importante na música. 


Um espetáculo (performance) é sempre um espetáculo (maravilha)?

- Uma performance é sempre um acto de coragem e nesse aspecto é por si só uma maravilha. 

Agora se o espetáculo é maravilhoso depende do seu conteúdo e forma e da opinião de quem o vê.


Há sempre uma parte nossa que morre e outra que (re)nasce?

- Há sempre coisas que vão sendo deixadas para trás mas podem não morrer e ser só esquecidas temporáriamente. E há sempre coisas novas que vão surgindo ou então são coisas velhas que com o caminho ganham novas formas.





Só a inquietação nos permite a fuga para o desconhecido e a sua construção?

- A inquietação  é muitas vezes o motor para fazer e procurar aquilo que queremos. E muitas vezes o que queremos é desconhecido, não fazemos bem ideia de onde vamos chegar. 


E de música: o que têm ouvido? - Cada um anda a ouvir as suas coisas mas deixamos aqui 3 nomes: 

Fernando Lopes-Graça, sobretudo a sua obra coral à capella, Woo e Nuno Canavarro.




Fotos: Vera Marmelo ;))

Oiçam o fantástico novo disco deles ('Aurora'): https://sensiblesoccers.bandcamp.com/album/aurora


Entrevista feita por escrito

15 anos

 
 

A música é uma interpretação do silêncio?

Hum… Acho que são duas coisas diferentes, mas há a necessidade do silêncio na música. Assim como a música sobressai a partir do silêncio, também. Mas não sei se é uma interpretação do silêncio! É mais daquilo que é o caos, o caos que esse silêncio pode provocar. Porque como o silêncio absoluto não existe, há sempre uma série de pequenas coisas que te influenciam a criar alguma coisa a partir do silêncio.



Como é que tu começaste a fazer músicas?

Não sei. Comecei a fazer rap com amigos lá no bairro em Lagos. Mas não sei ao certo de onde é que vem: se vem duma urgência musical, ou se vem de uma urgência social - eu com outras pessoas -e não sei como é que começa. Sei que agora é sempre necessário! Sinto que tenho de estar sempre a fazer!


Mas sentes isso de ter de expressar alguma coisa?

Sim! Agora, sinto sempre essa necessidade. É constante! Às vezes estou um bocado chateado com a música mesmo e fico um bocado revoltado. Há períodos em que não me apetece fazer porque sinto que me sinto… não sei… sinto-me menos próximo daquilo que faço, às vezes. Mas depois, essa urgência volta a aparecer e essa proximidade também.


E como estás quando andas em digressão?

Eu não costumo ter digressões grandes. A maior que tive foi agora esta de há duas semanas no Norte.

E no Lux!

E toquei no Lux a semana passada, sim! Mas as digressões são sempre no máximo duas datas, porque Portugal é muito pequenino. Então, nunca temos assim períodos de concertos assim muitos largos.


E dessas vezes em que tás em palco, alguma vez queres que o teu corpo desapareça e se torne música, se torne guitarra?

Sim, gostava que acontecesse alguma coisa assim desse género! Que fosse, que se tornasse mais imaterial e que fosse única e exclusivamente a expressão musical.


Tudo o que se cria em palco acaba por ser destruído pelo tempo até só existir nas nossas mentes?

Não, porque o palco tem um potencial muito grande. Há toda uma comunicação e uma linguagem na forma que também é igualmente importante; então, é importante que as memórias se modelem e comecem a ficar escolhidas pela perpetuação delas mesmas. Acho que quase todos os concertos nos tocam! Mas depois há aqueles concertos de que tu te lembras no dia a seguir, na semana a seguir, continuas a lembrar-te… E, entretanto, ainda te lembras deles, mas lembras-te deles de uma maneira um bocado diferente. E fica só uma memória com aquilo que tu quiseste guardar. E muitas vezes, tem uma imagem inerente à música que ouviste.


Como é que tu escreves melhor as músicas?

Em que situações? Não sei, pra escrever a parte das letras preciso de tar um bocadinho sozinho. Não tem que ser sozinho num local. Tenho é que conseguir criar uma bolha qualquer pra poder pensar e deixar respirar aquilo que me está a atormentar, ou aquilo que me está a deixar muito feliz e perceber como é que posso pôr isso em palavras.


A liberdade é a possibilidade de sermos outra coisa?

Sim, é a possibilidade de sermos aquilo que nós quisermos! Desde que nunca se ponha em causa as outras pessoas que nos rodeiam, não sejamos ofensivos com os outros. E a liberdade nunca será isso! Portanto é só mesmo uma vontade subjetiva de cada um. É uma coisa muito individual, mas é isso. Acho que é mesmo isso!


Para nos construirmos precisamos de ser destruídos?

[Um curto silêncio] Se calhar! Se calhar temos que matar um bocado. Pelo menos parte, não tem de ser na totalidade… Mas há muitas coisas que não têm meio-termo e nós temos que conseguir matar aquilo que nos caracteriza de certa forma ou aquilo que somos, para nos encontrarmos novamente. De certa forma, vamos dar sempre ao mesmo sítio, mas há uma ponta qualquer solta que nos permite puxar e sentimo-nos sempre mais perto de uma nova identidade nossa, ou assim.


Achas que o novo disco espelha o que és?

Espelha totalmente aquilo que eu quero ser e que sinto que é melhor para mim. Musicalmente, é o resultado do contributo de várias pessoas, por isso não há-de espelhar só o meu lado. Mas, eu sinto-me sempre em construção e acabo por me afastar sempre um bocado daquilo que acabo de fazer. A minha cabeça é muito volátil e eu estou sempre a precisar de estar a fazer coisas novas… eu, provavelmente agora sou mais daquilo que estou a fazer agora do que com este disco. E, sim! Isto falando sempre da parte musical, não falando tanto da parte do teu dia-a-dia, porque tu no teu dia-a-dia és uma série de coisas: as escolhas que fazes quando vais comer, és aquilo que vais comer, o sítio onde decides ir comer, o sítio onde decides ir passear, a esplanada que escolhes para ler um livro ou a música que vais ouvir nesse dia também te pode condicionar. Ao nível da minha criação, acho que neste momento já me sinto mais próximo do próximo disco do que com este que acabou de sair!


Mas achas que é mais o que tu és ou o que vais sendo?

O que acaba por acontecer é... A vantagem de fazeres canções, de escreveres ou de te expressares artisticamente é que tu acabas por, no meu caso, pores em palavras coisas que mexem comigo emocionalmente. E isso leva-me a que eu tenha de me explicar a mim próprio primeiro. E isso ajuda-me a fincar os pés na terra, a ter uma passada com uma marca mais forte. Se eu for só sentimentos e andar só com a cabeça a voar, acabo por não saber onde é que me quero enquadrar ou assim. E quando começo a pensar sobre aquilo que tou a dizer, vou cada vez mais fundo e consigo-me tornar um eu um bocado mais sólido.


Ao questionarmos os outros, respondemo-nos a nós próprios?

Sim, sim! Muitas das vezes! Isso nota-se muito quando dás conselhos, quando dás conselhos a amigos sentes muito isso. E nas canções acaba por acontecer um bocado isso, que é a mesma coisa. Quando alguém tem um problema e tu tás a dar um conselho, e, de repente, percebes que cabes nesse saco ou que devias enfiar o capuz nessa explicação que estás a dar à pessoa. Porque tu também fazes as mesmas coisas, então, é totalmente o que estás a dizer.



Sentes-te família da Fetra, da Xita e da Spring toast?

São editoras que me são muito próximas. Se calhar, a Cafetra agora menos, porque já não trabalhamos juntos há algum tempo, mantemos só alguma amizade. Com a Xita… eu sou muito amigo do Primeira Dama e da Lucía, então há uma proximidade mesmo muito grande. E a Spring Toast foi a editora que me acolheu no disco anterior. E foi a amizade que fui desenvolvendo. Eu acho que isto é tudo um bocado pelos laços que se criam com as pessoas, porque tu sentes-te próximo daquilo que as pessoas fazem e vice-versa. É um bocado a mesma coisa de donde é que vêm as canções. Tu nunca sabes onde começa a relação. Se começou pela amizade, ou pela música. Começa, de certeza, por um ponto de interesse comum, isso é certo. Mas, a certa altura, já não sabes o que é que é, perdes um bocado a noção se é pela amizade, se é a música.



E gostas disso de ‘dar e receber’ quando produzes os discos deles?

Sim, gosto mesmo muito. Sinto que aprendo imenso quando estou a produzir um disco de alguém. E essa possibilidade de dar sempre mais um bocado de mim, na linguagem de outra pessoa, que acaba, por outra forma, por ser igualmente gratificante. Há uma cena qualquer na partilha musical, quando estás a fazer um disco que não é teu, que me obriga a descer sempre um degrau porque não posso tomar as decisões finais. Posso tar sempre a dar sugestões, a explicar as minhas ideias e tudo mais para contribuir ao máximo, mas tenho sempre que descer um degrau, porque não sou eu quem decide. E acaba por ser um processo de partilha mais lucrativo para mim do que quando estou a fazer a minha própria música com outras pessoas. Acabo por achar mais divertido esse lado...


A nossa sombra é a nossa parte mais inquieta?

[um curto silêncio] Epá! Porque é que tu vês isso assim?

Não sei…

Há aí uma perspetiva de…

Porque tu não a consegues controlar, não tens muito controlo sobre ela, acaba por ser irrequieta ...desculpa lá interromper!

Sim, é engraçado porque é aquilo que sobra daquilo que te ilumina, não é? A do Peter Pan é completamente irrequieta! É um bocado estranha essa sensação, porque realmente aquilo que te dá mais luz deixa-te uma marca para trás. Mas eu não sei… eu acho que é uma espécie de imagem disforme daquilo que tu és. Mas eu não sei se será irrequieta, é tão irrequieta quanto tu, mas ganha dimensões um bocado disformes, porque… e não sei se é porque… Essa pergunta é muita difícil!

Mas há uma razão qualquer para as sombras serem uma coisa que te fica para trás e que ganha formas que não são tuas. Como se fosse uma espécie de eco que fica a perder nitidez aos poucos e fica a deixar uma carga tua que é ligeiramente diferente de ti. E ao mesmo tempo, à medida que tens menos luz, vais tendo menos sombra. É como se quanto menos te expressasses menos sombra tens, quanto mais te expressas mais sombra tens, mas mais diferente pode ser de ti próprio. É isso!


A música pode ser uma viagem para uma utopia?

Sim, espero sempre que sim! A ideia de utopia é muito bonita e muito cruel, não é? É sempre uma cenoura à tua frente, parece que nós somos sempre cavalos atrás de uma cenoura… Porque é sempre um sítio que, quando tu estás mais perto de alcançar, mais se afasta de ti. É sempre assim! Aquilo que nós conseguimos para nós, nunca é o ideal para as pessoas que vêm a seguir.

E isso é um bocado a sombra, tu aproximas-te da sombra e ela foge!

É, é um bocado isso é! E parece que nunca consegues tocar na cabeça da tua sombra, sim!


E o que é que andas a ouvir?

Agora, de momento, ando a ouvir Raincoats; “Por este rio acima”, do Fausto; também ando a ouvir a Charli XCX.


[Fiz uma pausa a achar que já tinha perguntado o que queria. Como o Filipe tinha passado algum tempo a olhar para a minha folha com olhos super curiosos, perguntei-lhe:]


Queres ver?

Deixa-me ver! Não perguntaste “Sem espectadores tudo cai no vazio?”!

Não sei, quer dizer… sei qualquer coisa sobre isto! Eu, antes de assinar este mini contrato com a Valentim, tinha a ideia de fazer um disco que não pudesse passar nas rádios.

Como assim?

Eu agora fiz o contrato de quatro discos, portanto isto não aconteceria tão cedo. Mas, não sei como é que é o consumo de música numa descoberta completamente individual. Gostaria de fazer um disco que não fosse possível de ouvir a não ser pela tua vontade só e isso não resolveria esta questão da importância do espectador, mas poderia pôr à prova aquilo que é a tua vontade. Não teres de levar com nada por intermédio de alguém! Só poderias ouvir aquele disco se fizesses o download. Eu não ia cobrar o disco, mas queria que as pessoas me tivessem de pedir para fazer o download. Agora, se sem espectadores a obra cai no vazio, só se me incluíres a mim como espectador, ou o criador como espectador! Aí sim! Aí cairá no vazio, mas caso contrário tenho-me sempre a mim próprio para ouvir, e isso é mais importante! Neste momento é assim que eu sinto a música, que é: tenho que a fazer para mim, tenho que me divertir! Foi o que me disse o Rafa, o Van Ayres. Ele, quando saiu o disco dele, disse que aquilo que fazia era divertir-se. Se ele se tivesse a divertir imenso com o que estava a fazer, era o suficiente. E a maior parte do tempo em que eu estou a fazer música é para só mim próprio, portanto tenho mesmo que fazer valer ao máximo esse momento. O momento em que mostro o que fiz, em que sai cá para fora um disco, ou em que dou um concerto é uma duração mesmo muito curta dum processo de lidar com sentimentos e criação. Seria demasiado pequeno eu dar tanta importância assim ao espectador! É um momento tão curto, seja uma hora de concerto, seja 40 minutos de disco, em comparação com o tempo todo em que estou a fazer a música. Acho que é muito mais importante para mim! Só cairá no vazio se eu me incluir enquanto espectador. Caso contrário, tenho sempre espaço para continuar a fazer.





O vídeo da ‘Deixem lá’ é brutal!

Obrigado! O que é que achaste da história dos aliens?

Mas percebes bem a história deles? Conta-me lá! Não tenhas medo de te enganares!


É fixe! Há um alien em casa com a namorada e depois vai trabalhar, chega ao trabalho estão lá os amigos/colegas. E aparece outro alien e ele fica tipo ‘E agora? Já não sou o único alien!’

Exatamente!


E depois ia ter com a namorada, mas eles vêm e ele fica com eles e descobre quem é que eles são.

Sim, e percebem que cada um pode ser igual a si próprio e todos podem ser amigos. O final é um bocado parolo, mas é isso! Há outra coisa super importante, que é o facto de ele ser um alien no meio de pessoas que não são aliens e ninguém levar a mal, ninguém se sente nada desconfortável com aquilo. E a primeira vez que alguém é preconceituoso é precisamente o alien. E era isso que nós queríamos que acontecesse.



Como é que chegaste aos Acompanhantes de Luxo?

Olha, o Adriano já tocava comigo em Cochaise e em Chibazqui e convidei-o pra tocar; o Luís tocava comigo em Cochaise; o Alek Rein, fui eu quem produziu o disco dele, por isso convidei-o nessa altura; e já conheço o Manel de Lagos, porque ele passava lá férias. Ele tinha 9 anos. Ele era muito amigo de um dos meus melhores amigos, o João Pratas (que tocava comigo em Lagos quando eu tinha uma banda lá e depois também tocou comigo em Cochaise). E foi daí que o conheci.


[Falámos um pouco sobre outras entrevistas, outros concertos (como o dos Animal no Capitólio), e do que ouvíamos com três/quatro anos] [Ah! E o Sambado disse-me para fazer uma entrevista ao Panda Bear <3]



E o que é que andas a ouvir agora? (esta é uma pergunta do Sambado)

Tu e tu e tu e tu.


Obrigado! [risos]


A certa altura, no disco, dizes “Gosto que estejas calado quando não tens nada para dizer/ parece que a liberdade tem um catálogo por escrever”. De que forma vês esta questão de sermos constantemente julgados pelos outros pela forma como nos vestimos, ou como nos apresentamos, seja o que for?


É importante! Porque as pessoas estão sempre a dizer alguma coisa… é chato, não é? Têm sempre alguma coisa para dizer sobre tudo e mais alguma coisa!

Noutro dia, estava com uma amiga minha que me estava a contar que agora há uma rapariga a fazer uns espetáculos, e há uma outra malta que lhe manda mensagens em privado a dizer que ela é um ultraje, porque é uma pessoa cis e não é por ser bissexual que se pode apropriar do tipo de discurso. Então, também parece que está a acontecer uma coisa pesada ao contrário da libertação, que estão a ser presos. Não podem ser ditos seja por quem for, porque há alguém que toma como seus e exclusivos discursos que são de liberdade. Essa letra era sobre questões de como me sinto perante o meu mundo socialmente: quer seja no trabalho, como também perante pessoas de quem eu não espero que haja certo tipo de discurso, mas que acabam por acontecer. É como se fosses afunilando cada vez mais o discurso e, de repente, a liberdade volta a ser só para alguns, novamente. Estamos a tentar que a massa permita que a minoria seja livre, e depois começas a afunilar o discurso e a minoria começa a dizer que não. Só a minoria das minorias é que pode ser livre a fazer esse discurso, não podes usar esse discurso. E, então, estão a acontecer coisas estranhas… Estão a haver pequenas guerras dentro de grupos, e não devia haver… é muito feio!



Tudo é efémero ou nada realmente acaba?

Não é efémero, ou pelo menos não quero assumir que é para não me ir abaixo.

É cíclico. Mas é cíclico assim, em… [desenha o desenho da esquerda] ...se calhar até é assim mesmo [desenha o da direita]. Não é? Parece que volta sempre a dar uma volta qualquer e há sempre coisas que vão caindo para baixo, parece que há pontos que perdem a validade em certos sítios, quando não se cruzam com os outros. Mas não é efémero, não é totalmente efémero, porque há a importância do momento.

Por isso, é que a história é tão pouco importante. A História são sempre memórias que ficam guardadas e que diferem de pessoa para pessoa. E as ficções que são feitas com a História são sempre para alimentar alguma coisa, só para alimentar a sobrevivência de quem fez o mal ou assim. Há uma série de pessoas privilegiadas que vão escrevendo a história de maneira a que os seus calos não fiquem pisados e que lhes permita continuar a estar num sítio qualquer. E as lutas vão acontecendo, sempre parecidas e ligeiramente diferentes.

Mas no fim, o que importa é o momento, então convém mesmo que tu te consigas libertar ao máximo de quem te tenta libertar. Eu não sei se esta frase é do André Teodósio ou não, mas ele está sempre a dizê-la que é “Liberta esse que te quer libertar”. Uma das coisas que a História realmente diz é que está sempre a ser escrita em função de quem a pode escrever. Quem a pode escrever vai sempre dizê-la como lhe dá mais jeito, por isso é que ela é não pouco importante, e o momento é sempre muito mais importante do que aquilo que vai ser dito. Aquilo em que acreditas agora é muito mais importante do que aquilo que acreditaste no passado e daquilo em vais acreditar no futuro. Sê o máximo convicto no momento. Isso! Mas não é efémero, não! Não é efémero porque nós temos um período qualquer, enquanto pessoas, temos um período de vida e convém que os nossos dias valham a pena!



É mais cíclico?

É. São ciclos cada vez mais pequenos e cada vez maiores. Até porque tu te esqueces das coisas, as memórias são sempre falíveis. De certa forma, é aceitar o que diz o Rafiki. Viste o Rei Leão?

Sim!

Ele fala com o Simba e dá-lhe com o cajado na cabeça, e o Simba fica magoado mas ele diz que já passou. É um bocado isso. As coisas têm um peso e têm sempre um peso no momento, portanto, é importante saber dar valor ao momento. Mas o momento que ficou para trás, já lá está, é sempre um ciclo que acaba. Se as coisas se perpetuam é porque estão a acontecer constantemente, e se estão a acontecer constantemente, têm de parar de acontecer (se são más). É nesse sentido que os ciclos existem é quando há a perpetuação de uma coisa, torna-se um ciclo, quando acaba, quando acontece e deixa de acontecer é só uma cena que passou.



Fotos: Vera Marmelo (again!)

Entrevista feita presencialmente, gravada e depois transcrita

14 anos.

 
 
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