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Como começou a trabalhar no “centro de pesquisa” (se é assim que Natxo Checa prefere) Zé dos Bois?

Durante alguns anos tive um programa de rádio/podcast chamado ‘Má Fama’. Semanalmente entrevistava e gravava sessões musicais com artistas nacionais e internacionais. Animal Collective, Grouper, Loosers, Colleen, Norberto Lobo ou Panda Bear foram alguns dos nomes que passaram pelo programa. As sessões eram gravadas em minha casa ou, frequentemente, na ZDB (sala por onde grande parte dos nomes internacionais vinham tocar). E aos poucos, casualmente, comecei a estabelecer uma relação com os meus futuros colegas. O convite para programar a música na ZDB surgiu dessa proximidade e como consequência do trabalho desenvolvido com a "Má Fama".


E a sua “má reputação”, como surgiu?

O nome Má Fama não se relaciona com a "má fama" aplicada num sentido pessoal. Apesar de ser uma expressão que é comumente usada nesse sentido, a minha ideia ao criar este nome foi brincar com a noção de que existe uma "má música" e uma "boa música". O meu objectivo com o programa, tal como o meu objectivo enquanto programador, é apresentar música pelas suas qualidades intrínsecas atravessando fronteiras em que se cruzam diferentes géneros musicais e diferentes públicos.



Assim que chego a casa ligo o rádio e deixo-me invadir pela magia da música. Também acha que a música é mágica?

Acho que a música tem poderes inimagináveis! A música, que é pela sua natureza imaterial, age sobre nós de formas que a ciência não consegue explicar na totalidade. No livro ’Musicofilia’ Oliver Sacks explora o "lugar" que a música ocupa no cérebro e o poder que ela tem sobre nós: a música é um agente poderoso, tanto ao nível corpo como a dança e as experiências de transe como num nível mais interno das nossas emoções.


Acha que conseguimos viver com o silêncio?

Acho que sim, que precisamos do silêncio para criarmos espaço dentro de nós para o som.


Faz com que se conheça o desconhecido?

Esse é um dos meus objectivos enquanto programador. Ao programar com o coração, fazer uma boa comunicação e apresentar cada concerto como a máxima dignidade, em noites em que tanto público com artistas ficam satisfeitos, são um meio para poder apresentar nomes menos conhecidos da grande maioria do ‘nosso’ público.


Sente que é da “família” dos músicos por os impulsionar e acompanhar na sua evolução?

Sinto que os concertos, mas sobretudo as residências artísticas que realizei são momentos desafiantes nos quais o contacto é aprofundado e em que há uma troca, de parte a parte, no sentido de apoiar o próprio processo criativo destes músicos. Tenho trabalhado com algumas das pessoas que mais admiro: Grouper, Angel Olsen, Norberto Lobo, entre outros. É um privilégio para mim poder tornar-me cúmplice de tanta gente talentosa!


E a pergunta clássica: E de música, o que se ouve?

Gosto de coisas muito variadas, mas estes são alguns dos discos que mais têm rodado:

Amen Dunes: ‘Love’ Alice Coltrane: ‘Journey in Satchidananda’ e ‘Divine Songs’ Caetano Veloso: ‘Araçá Azul’ Kevin Morby: ‘Singing Saw’ Jenny Hval ‘Apocalypse Girl’


foto: Vera Marmelo

Entrevista feita por escrito

Tinha 12 anos e foi a minha segunda entrevista


Poderão consultar a programação da ZDB em: https://zedosbois.org


 
 
  • 19 de fev. de 2016


Como começou a fazer rádio?

Foi assim como num piscar de olho! O meu irmão jornalista apercebeu-se da minha voz quando eu tinha 16 anos e fui experimentar. Nunca mais saí de 'lá'.



Qual é o critério para escolher os entrevistados para o "Fala com Ela"?

Gosto de sentir alguma proximidade ou curiosidade em relação ao convidado. Tenho de sentir algum tipo de afinidade para passar uma hora com aquela pessoa, como quem vai tomar um café. É para mim um acto íntimo que pressupõe vontade.


É interessante e mágico as pessoas imaginarem um radialista quando apenas sabem como é a sua voz. Prefere que os ouvintes não saibam como é?

Não, por acaso gosto que saibam como sou. No fundo é como no amor: ver o todo sem mais disfarces e amar por cima de tudo isso. Saber como somos não quebra o mistério. O mistério está muito dentro de nós. É isso que é fascinante nas pessoas.


Os ouvintes são a sua família. Também os imagina?

Claro. Sinto muito a força deles, os ecos deles fazem de mim todos os dias melhor pessoa. O que tenho para lhes dar hoje em dia é mesmo o meu melhor.


Na rádio ninguém a vê, mas na televisão não é bem assim… É um motivo para preferir a rádio à televisão?

Rádio para mim é casa, é conforto, solidão acompanhada. Pode ser de dia e sentirmo-nos de luz apagada, numa intimidade rara. A televisão tem o seu fascínio mas nunca nos dará isso.


Num trabalho destes deixamo-nos voar e não nos prendemos à rotina?

Sim claro. Eu preciso da rádio e de ir trabalhar todos os dias como quem garante a sua sanidade mental. A vida está cheia de surpresas: é preciso agarrá-las. Na rádio elas não param de acontecer. Mas como em tudo, temos de querer muito que a vida aconteça.


Foto: Vera Marmelo

Entrevista feita por escrito

Tinha 12 anos

 
 
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