- 31 de mar. de 2018
Um artista deve ser singular e ter a sua verdade, a sua linguagem?
Diria que sim. A arte de um artista normalmente é um espelho de si
mesmo, se for verdadeiro. Se não for verdadeiro consigo mesmo, sendo
mentira, acaba em sofrimento... quando mergulhamos em nós mesmos,
tendo cada um uma história singular, se estivermos capazes e afinados,
a linguagem deverá ser singular também. Se não estamos só a perpetuar
o que já foi feito ou simplesmente a revelar o nosso gosto. Nada de
errado com isso, mas acho que queremos sempre algo que nos supere e
transcenda, algo para além do gosto, uma proposta única e se possível
nova. Para estarmos alinhados com o tempo, que está sempre a andar
para a frente.

A transversalidade é uma maneira de ser infinito?
Wow. não sei? mas... muitos artistas foram transversais nas artes,
outros em várias linguagens dentro de um tipo de ofício. Falamos
sempre no imortal, não é? deixar aqui alguma coisa depois de morrermos.
Não é tão diferente de infinito talvez? Mas um se se inserir dentro de
várias correntes pode se aproximar mais de um género de infinito,
lembro me agora do Miles que o fez sempre a reinventar-se, o Picasso
que fez tanta coisa diferente, tantos estilos e suportes diferentes
durante tantos anos. Sempre me inspirou muito os artistas que
conseguiram "keep their shit together" e que foram sempre melhorando,
criando, ao longo dos anos e se aproximando da velhice. Temos tantos
exemplos daqueles artistas excelentes no inicio de carreira e depois
vão piorando ao longo do tempo até já não dizerem nada. Ou se
transformam numa sombra de si mesmos ou ficam pela fama ou o dinheiro.
Isto não é infinito de certeza.
A bateria recarrega sempre as baterias?
É um dos instrumentos mais antigos, intuitivos e orgânicos. Batucamos
desde cedo. Tudo envolve energia claro, mas a bateria por excelência
vive dessa energia. Quantas vezes não descarreguei tudo no instrumento
para me "salvar" a vida. Quantas vezes estando cansado, depois de
tocar, ensaiar ou dar um concerto saio revitalizado e cheio de pica e
motivação. Não sei se recarrega sempre, o instrumento já me arrasou
várias vezes, mas o recarregar as vezes não é só físico também. O
arraso pode ser importante para entrar no buraco, para termos que
voltar a sair com um espirito mais elevado.
Tocar (e ter liberdade para o fazer) é uma poderosíssima arma e ferramenta?
Claro. As nossas vozes são as nossas armas. A minha música é a minha
guerra, a bateria a minha arma. Tendo a liberdade de o fazer, sou
responsável pelas decisões que tomo. Todas essas decisões para mim
deverão ter alguma utilidade social, ter uma responsabilidade com este
tempo e este espaço. Estamos vivos e temos que lutar por aquilo que
achamos certo. Eu quero um mundo melhor e quero ter essa
responsabilidade nas minhas mãos. As baquetas estão nas minhas mãos.
Tento o meu melhor. Sangue suor e lágrimas.
O palco, para além de ser um laboratório de experimentação,
permite-nos descobrirmo-nos e ser um outro desconhecido?
O jazz sempre viveu muito desse modus operandi. A improvisação precisa
disso. Um solo sem espectador cai no vazio, todos os dias improvisamos
e dissipa-se no ar. O verdadeiro efémero. Claro que gravamos discos,
mas a nossa vida é nos gigs, nos palcos. Às vezes pode parecer
egocêntrico, mas na verdade é a tal história da responsabilidade outra
vez. Se pomos o pé em no palco em frente ao público e não estamos a
dizer o que é preciso dizer, sem precisão, sem rodeios, torna-se uma
mentira ou uma brincadeira. No palco a improvisar, todos os dias é
diferente, e todos os dias mudamos, nunca sabemos como vamos acordar.
Às vezes feliz, às vezes triste, o que aconteceu antes do gig, o que
comemos, os livros que acabamos de ler, a política do momento, a
meteorologia, as estações... tudo influencia, e por isso se um não
tiver medo de encarar o presente, o super presente, no palco, todos os
dias encontramos alguma coisa nova, o tal desconhecido. Há sempre um
detalhe novo para descobrir e mergulhar e às vezes numa sala de ensaio
ou a estudar sozinho não temos essa adrenalina ou responsabilidade ou
até motivação de mergulhar nesse abismo. No fina,l acho que o que
queremos é estar todos juntos e partilhar, daí esta humanidade sofrer
tanto...
O mais confortante do desconforto é poder-se tornar conforto?
Não sei se conseguimos atingir esse nível de loucura. Somos obcecados
por conforto e segurança. As maiores ferramentas à preguiça e ao medo.
Uns mais viciados que outros. Eu por vários motivos sempre tentei
disciplinar-me para fugir a isso, sofro demasiado quando encosto. Mas
nunca se sabe onde vou acabar, poderei morder a língua. Mas até hoje
entre viagens loucas a atravessar oceanos em barcos à vela, escalar
montanhas , surfar, tocar esta musica doida por aí a fora e tentar
sempre crescer espiritualmente e tecnicamente vejo que isto é mesmo
infinito, o crescimento. É complicado, as pessoas depois têm famílias,
contas, prestações... a energia vai se a baixo. Eu nem nação tenho.
São três passaportes e não me sinto verdadeiramente de nenhuma
nacionalidade, o que me traz um grande liberdade mas desconforto.
Talvez esteja a procurar esse tal cantinho, mas tive a sorte de vir ao
mundo com energia para dar e vender, e enquanto assim o for, não vou
encostar à box.
Estar em palco também é conhecer os outros, os espectadores?
Sempre. Cada palco um público. Público esse que emana energia e mexe
na música que estamos a fazer nessa noite, nesse momento. Isto é nosso
e para nós, mas nós também somos os outros e por isso estamos todos
juntos a ver onde a vida nos leva.

Ter uma mensagem (que será sempre ambígua), completa um artista? No fim, talvez seja tudo o que nos resta. Ter um estilo, um assunto, uma mensagem, uma proposta. Nunca vamos ser completos, a busca é a tal construção. Isso não tem limites. Por isso, vamos sempre morrer incompletos, mas podemos tentar ir o mais longe possível. O artista tem esse fardo de talvez nunca ser preciso com o seu problema ou salvação mas isso é o nosso problema com as palavras e a linguagem. Mas ao mesmo tempo cada vez que damos à luz um novo objecto ou ideia, composição, isso é um nascimento, o que nos possibilita andar para frente. Essa é a sorte do artista. Acredito que isto de estar vivo, o importante é FAZER, apesar de ser uma das grandes discussões. Portanto passar uma mensagem qualquer. Cresceu nos o polegar por alguma razão, se não ainda seríamos todos macaquinhos sentados nas árvores a olhar para a natureza a acontecer mas parece que um dia o por do sol nos entediou.
Foto: Vera Marmelo Entrevista feita por escrito
Tinha 14 anos



