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Um artista deve ser singular e ter a sua verdade, a sua linguagem? Diria que sim. A arte de um artista normalmente é um espelho de si mesmo, se for verdadeiro. Se não for verdadeiro consigo mesmo, sendo mentira, acaba em sofrimento... quando mergulhamos em nós mesmos, tendo cada um uma história singular, se estivermos capazes e afinados, a linguagem deverá ser singular também. Se não estamos só a perpetuar o que já foi feito ou simplesmente a revelar o nosso gosto. Nada de errado com isso, mas acho que queremos sempre algo que nos supere e transcenda, algo para além do gosto, uma proposta única e se possível nova. Para estarmos alinhados com o tempo, que está sempre a andar para a frente.



A transversalidade é uma maneira de ser infinito? Wow. não sei? mas... muitos artistas foram transversais nas artes, outros em várias linguagens dentro de um tipo de ofício. Falamos sempre no imortal, não é? deixar aqui alguma coisa depois de morrermos. Não é tão diferente de infinito talvez? Mas um se se inserir dentro de várias correntes pode se aproximar mais de um género de infinito, lembro me agora do Miles que o fez sempre a reinventar-se, o Picasso que fez tanta coisa diferente, tantos estilos e suportes diferentes durante tantos anos. Sempre me inspirou muito os artistas que conseguiram "keep their shit together" e que foram sempre melhorando, criando, ao longo dos anos e se aproximando da velhice. Temos tantos exemplos daqueles artistas excelentes no inicio de carreira e depois vão piorando ao longo do tempo até já não dizerem nada. Ou se transformam numa sombra de si mesmos ou ficam pela fama ou o dinheiro. Isto não é infinito de certeza.

A bateria recarrega sempre as baterias? É um dos instrumentos mais antigos, intuitivos e orgânicos. Batucamos desde cedo. Tudo envolve energia claro, mas a bateria por excelência vive dessa energia. Quantas vezes não descarreguei tudo no instrumento para me "salvar" a vida. Quantas vezes estando cansado, depois de tocar, ensaiar ou dar um concerto saio revitalizado e cheio de pica e motivação. Não sei se recarrega sempre, o instrumento já me arrasou várias vezes, mas o recarregar as vezes não é só físico também. O arraso pode ser importante para entrar no buraco, para termos que voltar a sair com um espirito mais elevado.

Tocar (e ter liberdade para o fazer) é uma poderosíssima arma e ferramenta? Claro. As nossas vozes são as nossas armas. A minha música é a minha guerra, a bateria a minha arma. Tendo a liberdade de o fazer, sou responsável pelas decisões que tomo. Todas essas decisões para mim deverão ter alguma utilidade social, ter uma responsabilidade com este tempo e este espaço. Estamos vivos e temos que lutar por aquilo que achamos certo. Eu quero um mundo melhor e quero ter essa responsabilidade nas minhas mãos. As baquetas estão nas minhas mãos. Tento o meu melhor. Sangue suor e lágrimas.

O palco, para além de ser um laboratório de experimentação, permite-nos descobrirmo-nos e ser um outro desconhecido? O jazz sempre viveu muito desse modus operandi. A improvisação precisa disso. Um solo sem espectador cai no vazio, todos os dias improvisamos e dissipa-se no ar. O verdadeiro efémero. Claro que gravamos discos, mas a nossa vida é nos gigs, nos palcos. Às vezes pode parecer egocêntrico, mas na verdade é a tal história da responsabilidade outra vez. Se pomos o pé em no palco em frente ao público e não estamos a dizer o que é preciso dizer, sem precisão, sem rodeios, torna-se uma mentira ou uma brincadeira. No palco a improvisar, todos os dias é diferente, e todos os dias mudamos, nunca sabemos como vamos acordar. Às vezes feliz, às vezes triste, o que aconteceu antes do gig, o que comemos, os livros que acabamos de ler, a política do momento, a meteorologia, as estações... tudo influencia, e por isso se um não tiver medo de encarar o presente, o super presente, no palco, todos os dias encontramos alguma coisa nova, o tal desconhecido. Há sempre um detalhe novo para descobrir e mergulhar e às vezes numa sala de ensaio ou a estudar sozinho não temos essa adrenalina ou responsabilidade ou até motivação de mergulhar nesse abismo. No fina,l acho que o que queremos é estar todos juntos e partilhar, daí esta humanidade sofrer tanto...

O mais confortante do desconforto é poder-se tornar conforto? Não sei se conseguimos atingir esse nível de loucura. Somos obcecados por conforto e segurança. As maiores ferramentas à preguiça e ao medo. Uns mais viciados que outros. Eu por vários motivos sempre tentei disciplinar-me para fugir a isso, sofro demasiado quando encosto. Mas nunca se sabe onde vou acabar, poderei morder a língua. Mas até hoje entre viagens loucas a atravessar oceanos em barcos à vela, escalar montanhas , surfar, tocar esta musica doida por aí a fora e tentar sempre crescer espiritualmente e tecnicamente vejo que isto é mesmo infinito, o crescimento. É complicado, as pessoas depois têm famílias, contas, prestações... a energia vai se a baixo. Eu nem nação tenho. São três passaportes e não me sinto verdadeiramente de nenhuma nacionalidade, o que me traz um grande liberdade mas desconforto. Talvez esteja a procurar esse tal cantinho, mas tive a sorte de vir ao mundo com energia para dar e vender, e enquanto assim o for, não vou encostar à box.

Estar em palco também é conhecer os outros, os espectadores? Sempre. Cada palco um público. Público esse que emana energia e mexe na música que estamos a fazer nessa noite, nesse momento. Isto é nosso e para nós, mas nós também somos os outros e por isso estamos todos juntos a ver onde a vida nos leva.



Ter uma mensagem (que será sempre ambígua), completa um artista? No fim, talvez seja tudo o que nos resta. Ter um estilo, um assunto, uma mensagem, uma proposta. Nunca vamos ser completos, a busca é a tal construção. Isso não tem limites. Por isso, vamos sempre morrer incompletos, mas podemos tentar ir o mais longe possível. O artista tem esse fardo de talvez nunca ser preciso com o seu problema ou salvação mas isso é o nosso problema com as palavras e a linguagem. Mas ao mesmo tempo cada vez que damos à luz um novo objecto ou ideia, composição, isso é um nascimento, o que nos possibilita andar para frente. Essa é a sorte do artista. Acredito que isto de estar vivo, o importante é FAZER, apesar de ser uma das grandes discussões. Portanto passar uma mensagem qualquer. Cresceu nos o polegar por alguma razão, se não ainda seríamos todos macaquinhos sentados nas árvores a olhar para a natureza a acontecer mas parece que um dia o por do sol nos entediou.


Foto: Vera Marmelo Entrevista feita por escrito

Tinha 14 anos

 
 
  • 21 de jun. de 2017

Há já alguns anos que fotografa concertos, apesar de ser engenheira de profissão. No maior dia do ano, encontrei-me com a Vera na ZDB. E foi mesmo um dia grande!

É importante referir que em cima da mesa está uma revista cuja capa tem uma imagem de uma menina que mais tarde vim a descobrir que se chama Maria.



Também na fotografia, é preciso curiosidade para conhecer o outro?

Sim! Aliás acho que essa é a parte mais divertida: estabelecer uma relação com as pessoas, de tal forma que elas se sentem perfeitamente à vontade com a tua presença. Portanto, o meu objectivo é conhecer as pessoas muito para conseguir retratá-las de forma fiel, para que elas se pareçam mesmo com aquilo que elas são. Não gosto de inventar um modelo, porque os músicos, pelo menos aqueles que eu fotografo, querem ser retratados de forma fiel. E é o conhecer, também no sentido em que as pessoas estão à vontade contigo, com a tua presença.

Por exemplo, aqui na ZDB, eu passo muito tempo com eles lá em baixo quando eles tão a fazer som. Eles tão a trabalhar! E ao mesmo tempo que tão a trabalhar têm pessoas à sua volta, ou eu a tirar fotos. Se eles não tivessem o mínimo de confiança comigo, ia ser muito mais difícil. Imagina que tu estás a estudar, sentadinha no teu quarto, caneta em riste, toda torta na cadeira, e de repente há uma pessoa à tua volta sempre a tirar-te fotos. Ia ser bastante incómodo! Se tu não conhecesses, se não fosse uma amiga tua e alguém em quem confiasses. Então, sim!

É muita curiosidade e uma vontade muito grande de ter gente à tua volta, de conheceres pessoas e interagir com elas. Isso é a parte mais divertida! Mas há quem faça outro tipo de fotografia em que não quer sequer ter uma relação e ter uma troca com o outro. No meu caso, sim! Eu quero muito conhecer as pessoas melhor.


Então, estavas a dizer que, de certa forma, se a máquina não for invisível, há um desconforto que nos leva a ficar “mal” na foto?

Não, não necessariamente. Eu acho é que se uma pessoa está desconfortável, perante a minha presença, vai estar menos natural. E se o meu objectivo é fotografá-la da forma mais normal possível, eu quero muito que eles estejam confortáveis com a minha presença. É isso!


Não é difícil fotografar concertos em vez de dançar e pular?

Sabes, eu já faço isso há tanto tempo, que o oposto é que é complicado! O que me é complicado é estar a ver um concerto, só ali, como espectadora. E não estar, de certa forma, a tentar fazer uma coisa que eu acho que depois é válida, não é? O tu guardares algumas recordações. Mas eu consigo-me divertir à mesma. A maior parte das vezes, quando há muita confusão, eu consigo estar sempre em lugares privilegiados que fazem com que eu me possa divertir sem estar constantemente a levar com alguém em cima. Mas com o passar do tempo, eu acho que me interessa mais até observar o público, que tá a aproveitar, do que necessariamente fazer parte daquilo. Então estou assim numa posição estranha! Não é? Gosto muito, obviamente, de ver concertos e de estar a assistir a música ser tocada ao vivo, mas acho que também gosto muito de observar quem está a ver a música a ser tocada e, então não é complicado. Já tive essa parte de estar a pular e a divertir-me muito antes de começar a fotografar concertos. Acho que dá para me divertir de várias maneiras.




Nunca saímos iguais de um concerto, há sempre algo que muda em nós?

Como vejo tantos isso já não acontece muito. Mas é muito bom quando acontece! 

Mas já estou com saudades de ter alguns momentos de transformação! É que eu vejo tanta coisa seguida que acaba por…a magia não é que se perca, mas começa a ser uma coisa um bocadinho mais banal. Então, quando isso acontece é maravilhoso! Quando tu sentes alguma coisa, não é? Alguma coisa de extraordinário, que te faça querer fazer alguma cena ou estar presente novamente num próximo concerto. Mas o tempo vai passando e já começas, eu pelo menos começo a ser uma observadora muito mais rígida. Começa a ser mais difícil tu convenceres-me, porque eu já olho para tanto que tem mesmo de ser muito diferente e provocador, para tu ficares impressionada. Se calhar não ando a escolher bem o que ando a ver… e agora até fiz uma pausa. Tive para aí, não parece muito a olhos de muitas pessoas! Falhei uma série de concertos que, se calhar eram coisas que se calhar gostava de ter visto. Mas o afastar-me também é muito no sentido de voltar a ter curiosidade e vontade de ir ver um concerto novamente, mesmo que seja de alguém que eu já conheça…

Ainda não sei bem qual é o concerto que me vai transformar daqui a uns tempos! Mas não tenho assim nenhum na lista. Começa a ser demasiado problemático… Percebes que é espetáculo, percebes que é igual todas as noites para o músico. Então ficas… não ouças esta parte… continua a sentir que vai ser transformador. [risos]


Podem as fotos a preto e branco ter mais cor?

Olha, ultimamente quando eu decido passar as imagens para preto e branco, regra geral é porque as luzes eram muito más. Então acaba por ser essa a decisão.

Mas acho que com o preto e branco a atenção por parte de quem está a ver a imagem vai mais para um olhar, uma expressão, a coisa na qual quem fotografou se focou. Mas depois com a cor tu descobres mil e uma outras coisas e outros detalhes que puxam por ti.

As duas versões são bonitas, e depois há géneros musicais que são mais vistos com preto e branco, há cenas musicais em que se está à espera de mais cor. Por exemplo, no hip-hop se calhar procura-se mais cor e energia e no metal mais preto e branco, mas não sei.

Às vezes depende muito das imagens que tu tens, se são coisas mais marcantes e mais intensas, em que tu queres fazer com que a pessoa se concentre mesmo num olhar, numa expressão, o preto e branco ajuda-te, porque as cores e distraem muito, mas também te distraem a fazer-te encontrar pormenores que o preto e branco às vezes esconde, porque está tudo monocromático.


Há bocado falávamos de ficar mal na foto. Quando nós dizemos que estamos mal numa foto… somos nós. É possível ficar “mal” numa foto?

A imagem que tu tens de ti própria é uma cena que lixa, logo à partida, um fotógrafo. Se tu não te vês como uma miúda bonita dentro daqueles padrões que tu tens  na tua cabeça é mais do que normal,  que a primeira imagem que tu vês,  numa foto tirada por outra pessoa, te seja desconfortável. A partir do momento em que estás completamente confortável com a tua imagem, acho que começas a relativizar imenso as fotos que aparecem.

Acho interessante que a série de variações de caras que tu tens ao longo do dia e ao longo da tua vida não te definem porque só fazem parte de um segundinho muito pequenininho da tua existência. E é muito difícil ir-se contra a construção da imagem que uma pessoa tem de si própria. Acho também bonito e interessante que na maior parte das vezes as pessoas achem bonito ver uma cara feliz, porque eu tenho uma tendência muito grande em fazer com que as pessoas fechem a cara. Fechar a cara, no sentido de estarem mais sérias e mais solenes, pois encaro o retrato como um momento de paragem. E, se calhar, há muitos outros fotógrafos que gostam mais de energia, dessa história do bonito e do feio.

Eu há uns tempos atrás, muito tempo atrás mesmo, tirei uma fotografia de um semblante muito carregado, de um ar muito pesado. Eu achava um retrato incrível, super forte mas o retratado detestava aquela foto. E se calhar, todas as outras pessoas à volta também achavam forte. Mas ele não era aquela pessoa na cabeça dele. No entanto, ele também era aquela pessoa.

De uma coisa tu podes ter a certeza: mais tarde vais achar que estavas gira naquelas fotografias  em que não te achavas bonita, porque a tua própria cabeça muda.

É uma resposta muito difícil de se dar, e o mais normal é as pessoas, realmente, não gostarem de se ver. Mas isso é um problema que elas têm com elas próprias e não com a fotografia, é algo que se vai construindo com o tempo


Conhecer o outro acaba por ser conhecermo-nos a nós?

Claro, claro! É um exercício muito interessante, essa história de se tu te esforçares a compreender porque é que uma pessoa pensa de uma maneira ou de outra, vais estar sempre a projectar nela as tuas experiências e as tuas deduções. Depois é  até a própria observação de como as outras pessoas se comportam umas com as outras, como é que elas dialogam, as energias que elas conseguem ter.

Também é preciso saber ler quando o ambiente começa a ficar muito carregado e é preciso retirares-te, ou quando as coisas estão mais leves e te podes aproximar. São coisas que eu já tive de fazer! Por exemplo: a Angel estava a fazer um ensaio de som, aqui na ZDB, e ela não precisou de me dizer absolutamente nada para eu me retirar da sala, porque eu sabia que ela estava muito nervosa, estava a rever coisas, estava stressada… Então tu sais de cena! Isso é tu teres sensibilidade para o outro, que é uma coisa que vais ganhando se tiveres esse interesse de promover o bem à tua volta.


foto da própria

Entrevista feita presencialmente, gravada e depois transcrita

Tinha 13 anos

 
 
  • 11 de nov. de 2016


Sem música não há dança ou dança-se sempre, mesmo com o barulho do silêncio?

Dançamos com o silêncio! A dança é a sua própria música...



Porque é que o palco nos assusta tanto?

Sermos vistos  enquanto actuamos, é uma maneira de partilharmos uma parte do nosso eu humano- mostrarmos aos outros o que nos faz sentir ligados, e em parte o que nos faz sentir vulneráveis. Só temos medo do palco se nos concentrarmos apenas na nossa vulnerabilidade e como ela aparece aos outros.


Pode a música estar em frascos com etiquetas e rótulos?

Nunca ouvi falar de música em frascos com rótulos e etiquetas, mas parece um óptima ideia! ❤️





Without music there isn’t dance or we can dance with  the noise of the silence?

Yes you can dance with silence, dance is it's own music.



Why does the stage scare us so much?

To be watched while performing, it is a way of sharing a part of our human selves-we show others what makes us feel connected, and in part what makes us feel vulnerable. We are afraid of the stage if we focus only on our vulnerability and how it appears to others.



Can music be in bottles with tags and labels?

I haven't heard of music in a bottle witn tags and labels but it sounds like a great idea!❤️




Foto: Vera Marmelo

Um muito obrigada ao Sérgio Hydalgo!

Primeiro traduzido e depois o original, entrevista feita por escrito;

Foi no dia em que fiz 13 anos

 
 
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